“Cabra-cega” urbana: a cidade que a história não mostrou

04 / Fevereiro / 2015 — 5:00 — Rolimã

POR WILL NASCIMENTO
[23 anos, é coordenador do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Vale do Jequitinhonha (Cededica-Vale) em Pedra Azul (MG) e membro da Rede de Jovens Comunicadores do Semiárido]

Cabra cega urbanaIlustração: Pabline Félix

Reconhecer a identidade sociocultural de um povo é antes de tudo passear por sua história, identificando os elementos da forma de ser, viver e fazer dos indivíduos. Elementos que, ao longo dos anos, foram atribuindo-lhes características peculiares. Mas, para compreendermos um determinado local em sua totalidade, é preciso ir além do que a história formal nos apresentou por meio dos livros e relatos. Faz-se necessário dar voz e visibilidade àqueles que, na maioria das vezes, foram deixados de lado pelas “linhas históricas” tradicionais.

Durante séculos os relatos históricos foram traçados a partir de um olhar elitista e unilateral, atendendo a interesses públicos ou privados. Isso se aplica tanto ao país como à história dos pequenos municípios, como Pedra Azul. Dessa forma, a formação política, econômica e cultural das cidades e das regiões é sempre atribuída à ação das classes dominantes, não reconhecendo a participação de grande parte da população, principalmente daqueles que residem em comunidades periféricas ou longe dos grandes centros urbanos. Assim, para cada parágrafo que foi escrito, há outro que não foi contado.

Contudo, o avanço tecnológico vem apresentando uma oportunidade de reverter esse quadro de invisibilidade. O surgimento de formas alternativas de comunicação e de baixo custo, como as redes sociais, possibilitou a democratização da produção de informações.

É nesse contexto que em Pedra Azul, cidade do interior de Minas Gerais, situada no Vale do Jequitinhonha, foi criado o projeto “Juventudes em Foco”. Idealizado no fim de 2013, a partir das discussões de jovens integrantes do Centro de Defesa dos Direitos da Criança do Vale do Jequitinhonha (Cededica-Vale), o projeto tem promovido a apropriação de linguagens e tecnologias da comunicação pelos adolescentes e pelos jovens. A proposta é que eles atuem na produção de mídias que retratem o cotidiano de bairros periféricos do município, promovendo um debate sobre a formação política, econômica e sociocultural desses bairros.

As atividades tiveram inicio no mês de fevereiro deste ano. Inicialmente foram inscritos 85 adolescentes e jovens com idade entre 12 a 25 anos, sendo a maioria moradores de áreas de vulnerabilidade social.  Os participantes foram divididos em quatro oficinas: produção de vídeo, produção de rádio, mídia tática (intervenções urbanas) e fotografia/produção escrita/WEB. No primeiro semestre, além dos conteúdos técnicos dessas linguagens, foram trabalhadas com os educandos questões referentes ao protagonismo juvenil e a importância da comunicação como ferramenta de garantia de direitos, visando ao fortalecimento da sua participação social. Finalizado esse processo, no segundo semestre, os adolescentes e jovens iniciaram o trabalho de campo nas comunidades, focado na produção comunicativa.

O primeiro trabalho foi realizado no bairro Cruzeiro, uma ocupação situada no alto de umas das “pedras” que rodeiam a cidade de Pedra Azul. Formada em meados da década de 1970, a comunidade é marcada pelos becos, vielas e casas de adobe, berço de histórias e figuras marcantes. A maioria dos moradores é migrante da zona rural e guarda costumes e tradições típicas do campo, como a culinária e festas tradicionais. Durante 45 dias os participantes do projeto realizaram pesquisas, entrevistas e gravações que resultaram na produção de um boletim informativo, um documentário, uma exposição fotográfica e intervenções de mídia tática. Todos os produtos foram apresentados para a  própria comunidade, através da realização de uma TV de Rua. O material também foi disponibilizado em redes sociais, blogs e sites de hospedagem de áudio e vídeo.

As mídias produzidas revelaram histórias como a da dona de casa Alvina Maria de Jesus, de 70 anos. Moradora do bairro há 40 anos, Dona Alvina foi por muito tempo a organizadora da tradicional festa de São João, onde eram servidos banquetes de assados de porco e galinha, preparados por ela mesma. Segundo ela, as primeiras festas foram realizadas sob a luz do candeeiro, pois a comunidade só passou a ter energia elétrica a partir da década de 90. Apesar de ter durado quase três décadas, e ter contribuído para a manutenção de costumes tradicionais do povo pedrazulense, a festa de São João de D. Alvina nunca recebeu o devido reconhecimento.

Outro ponto importante foi a discussão, através das mídias e intervenções, de problemas que afetam a comunidade.  Por ser construída em cima de um bloco de granito, o bairro enfrenta dificuldades nas questões referentes à acessibilidade, coleta de lixo e rede de esgoto. Ao final das produções, foi elaborado um documento, traçado pelos educandos a partir das discussões com os moradores, contendo reivindicações e sugestões de melhoria da qualidade de vida local. O documento será encaminhado a órgãos públicos municipais, estaduais e federais.

A segunda localidade em que o trabalho está em curso é o bairro Conceição, popularmente conhecido como “Ladeira”. Sendo uma das primeiras comunidades formadas distante do centro de Pedra Azul, o Conceição é marcado pela tradicional festa dos Santos Reis, onde o Boi de Janeiro “Sadam” e a Maria Teresa “Patativa” desfilam pelas ruas nos primeiros seis dias do ano. No bairro, que em outros tempos foi caminho de passagem dos tropeiros que carregavam gado em direção às cidades de Felisburgo e Joaíma, mora o vaqueiro aposentado Waldemar Ferreira, de 77 anos. Seu Dema, como é conhecido, mantém em um cômodo da casa um museu de peças antigas. Sua coleção contempla utilidades domésticas e arreios de cavalo, passando por itens como  baús que eram utilizados para guardar dinheiro na primeira metade do século XX.  O vaqueiro contribui para que parte da história do bairro e da cidade não se perca no tempo.

As atividades vêm mostrando que existe outra cidade que não é vista ou contada pelos livros de história. Elas ainda reafirmam que o primeiro passo para conhecer de fato as raízes e identidades é reconhecer a importância da periferia na formação política, social, cultural e econômica da cidade. E apontam, sobretudo, que a história não pode trajar apenas paletós e gravatas.

[Este artigo foi publicado na quarta edição de Rolimã (página 64). Acesse a revista na íntegra aqui.]

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