Cine Estrela: Ocupar, resistir e projetar

“O cinema é escolhido porque é uma forma de profanação à integridade humana e porque é o caminho mais fácil de salvar o artesão.”

(Glauber Rocha citando Bergman em Revolução do Cinema Novo)

O Cine Estrela é uma das atividades realizadas no Espaço Comum Luiz Estrela a partir do Núcleo de Audiovisual, que é desenvolvido por pessoas interessadas em cinema.

O Espaço Comum Luiz Estrela surge a partir da ocupação de um casarão situado à Rua Manaus, 348, imóvel tombado pelo patrimônio cultural do município, porém completamente abandonado pelo poder público, há cerca de 19 anos.

Inaugurado em outubro de 2013, a ocupação teve a participação direta de 80 pessoas, entre artistas, ativistas, educadores, profissionais autônomos e produtores culturais, que devolveram à cidade numa manhã de primavera, entre experimentações artísticas de forma lúdica, um patrimônio histórico em ruínas. Em poucos dias, centenas de pessoas já integravam e colaboravam com as atividades da casa. E rapidamente o movimento teve a adesão e apoio de milhares de outras pelas redes sociais a partir de vários lugares do Brasil e do mundo.

O passado do Casarão era praticamente desconhecido e somente foi sendo descoberto a partir da ocupação, revelando cicatrizes que se confundem com a história da cidade. Tombado pelo patrimônio cultural do município em 1994, junto ao conjunto da praça Floriano Peixoto, o imóvel foi sede do 1º Hospital Militar de Belo Horizonte (de 1913/1914 a 1947), de um Hospital Psiquiátrico Infantil (de 1947 a 1979) e da Escola Estadual Yolanda Martins Silva, que funcionou ali até 1994, quando foi fechado por problemas na sua estrutura.

O homem homenageado pela Ocupação, Luiz Otávio da Silva, o Luiz Estrela, foi um artista marginal, morador de rua, performer, homossexual, poeta. Luiz Estrela morreu em 26 de junho de 2013, dia de uma das grandes manifestações contra a copa do mundo em Belo Horizonte, momento de grande confronto e violência policial, havendo indícios de que ele possa ter sido vítima dessa violência; certamente negligenciado pelo Estado quanto à ausência de atendimento médico; e sequer houve investigação para chegar à verdadeira causa da sua morte, que compõe uma série de casos que o Ministério Público dos Direitos Humanos investiga, todos ligados à morte de pessoas em situação de rua. O contexto da morte de Estrela infelizmente não é exceção, mas compõe um quadro de negação absoluta de direitos, por parte do Estado, às pessoas em situação de rua.

O espaço homenageia este artista. E pouco mais de um mês após a ocupação, quando o espaço já incorporava o nome de Luiz Estrela, o coletivo descobriu que ele era também usuário do serviço de saúde mental, com passagem pela Rede de Hospitais da FHEMIG – a mesma que possuía legalmente a posse do Casarão até a sua ocupação cultural. As descobertas sobre o Casarão colocaram o coletivo diante da responsabilidade de resgatar as histórias ocultas, submersas entre suas paredes. É assim que o Espaço Comum Luiz Estrela passa a ser pautado por lutas anteriores à ocupação e ainda em curso na história da cidade, como a luta antimanicomial e os direitos da população de rua.

A partir da ocupação, centenas de pessoas e atividades passaram a integrar o Espaço. No final de 2013, depois de intensa ação de resistência à desocupação e dois meses de negociações com o poder público, o imóvel foi cedido pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) ao grupo de residentes e hoje funciona de forma permanente e colaborativa.

Para que a cessão de uso fosse possível, uma das exigências do Estado foi que a responsabilidade fosse assumida por um ente jurídico que pudesse assinar o termo de cessão de uso do espaço. A ONG Oficina de Imagens, instituição que atua desde 1998 nos campos da Comunicação e Direitos; e Educação e Fortalecimento do Sistema de Garantia dos Direitos de Crianças e Adolescentes, abraçou este desafio e se tornou parceira da ocupação.

O Espaço se pauta por três eixos: Estruturação e Autogestão; Arte, Cultura e Educação; Patrimônio Cultural e Memória.

Por se tratar de um patrimônio histórico e em função das condições de deterioração em que o imóvel se encontrava no momento da sua ocupação, um dos fundamentos de organização do Espaço é o Patrimônio Cultural e Memória. Desde o momento da ocupação foi desenvolvido um plano de pesquisa e recuperação da edificação tombada com pessoas de diversas áreas (arquitetura, engenharia, restauro, história, arqueologia, sociologia/antropologia, artes e psicanálise/psiquiatria). Uma campanha de financiamento coletiva através do Catarse, com participação de centenas de apoiadores, possibilitou a realização de uma primeira etapa de intervenção emergencial buscando conter a estrutura do edifício, em risco de desabamento. O casarão já possui um projeto de restauro aprovado junto à Diretoria Cultural do Município de Belo Horizonte e luta por formas de financiamento para viabilizá-lo.

No campo da arte, cultura e educação, o Espaço busca consolidar um lugar sempre aberto a pessoas dispostas a desenvolver atividades artísticas, formações, debates, com o propósito da difusão e democratização do acesso à arte e bens culturais.

O Espaço agrega ações dos diversos campos artísticos: artes cênicas, música, artes visuais e audiovisual. A composição que se foi desenhando no Espaço está materializada atualmente na forma de Núcleos, que são formados por livre iniciativa e área de interesse das pessoas e grupos que se aproximam e integram o Espaço. Foi assim que surgiram os Núcleos de Memória e Restauro, Núcleo de Teatro, Núcleo de Permacultura, Núcleo Legal (que cuida da autogestão financeira, jurídico e relações institucionais), Núcleo de Comunicação e Programação, Núcleo Antimanicomial, e Núcleo de Audiovisual. Além de outras atividades/espaços como a Feirinha Estelar (espaço de geração de renda autogestionada) e a Roda de Pedagogia Libertária (que desenvolve atividades pensando a educação como prática de emancipação libertária).

O Núcleo de Audiovisual surge a partir de iniciativas espontâneas ligadas ao audiovisual, desenvolvidas desde o primeiro momento da ocupação por alguns dos seus integrantes: registro das atividades, projeções de filmes na fachada do edifício, oficinas. Aos poucos esta área de interesse, por promover ações de rotina no Espaço, levou seus colaboradores a se reunirem com certa freqüência para trocar experiências, propor ações e dar vida ao Cine Estrela.

O Núcleo de Audiovisual é um espaço aberto a todas as pessoas interessadas pela arte cinematográfica, formado por pesquisadores, produtores, realizadores e curiosos das interseções estabelecidas entre cinema e sociedade. Ao longo de 2014 foram realizadas reuniões periódicas e tomou corpo o Cine Estrela, um espaço alternativo de cinema na cidade, que já abrigou mostras, lançamentos de filmes de produtores locais e rodas de conversas entre realizadores e público.

O Núcleo já recebeu e articulou iniciativas de interessados em desenvolver oficinas, produções locais e ações diversas no campo da imagem.

Em 2015 o Cine Estrela sediou a 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul, iniciativa do Governo Federal e Universidade Federal Fluminense; e no mês de maio percorreu narrativas cinematográficas que dialogam com a loucura e a liberdade, por ser mês de referência nacional da luta antimanicomial. Todas as sessões ao longo de 2015 contaram com a participação de um público expressivo e as rodas de conversas ocorridas logo após cada exibição se tornou um agradável espaço de trocas, sempre contando com a participação de alguma pessoa convidada a comentar a obra.

O Cine Estrela não se firma como um cineclube, porém se nomeamos alguns princípios próprios a este tipo de movimento, é possível encontrá-los ali geminados nesta experiência de portas abertas, projeção ao ar livre, estrelar. Se falta clube ao nome, não falta seu sinônimo à ação: o caráter de realização e participação coletiva. Felipe Macedo, importante ativista da causa cineclubista no Brasil, em seu site Cineclube Utopia, defende três características determinantes aos cineclubes, diferenciando, por exemplo, de circuitos de salas de arte, cinematecas ou salas de instituições privadas. São eles: não ter fins lucrativos; possuir uma estrutura democrática e afirmar-se com um compromisso cultural, ou ético.

No Cine Estrela a definição quanto aos filmes que são exibidos passam por uma discussão em reunião aberta à participação de qualquer pessoa; de demandas provocadas pelos participantes; das agendas políticas da cidade (direitos da população de rua; luta antimanicomial; luta contra a diminuição da maioridade penal; ocupações urbanas, dentre outras); produções locais de realizadores independentes; mostras alternativas que veiculam filmes fora do circuito comercial.

Se o Espaço Comum Luiz Estrela tem o propósito de contribuir por uma cultura política participativa, acessível e libertária, o Cine Estrela faz coro com este desafio e tem como flecha um feixe de luz. Para Ismail Xavier, a energia criadora deve emergir impulsionada pelo confronto com o teor da experiência que o cerca e com as condições adversas da sua prática. É assim que os espaços alternativos de projeção são respiros de resistência fundamentais para possibilitar a circulação de filmes que são realizados e transitam fora da órbita comercial/hegemônica.

Infelizmente o cinema não é uma arte acessível a toda população. Os preços abusivos e a localização restrita ao centro dificultam ou mesmo impedem o acesso. Assim, a prática cineclubista não é meramente uma atividade amadora, mas uma ação determinante para o acesso ao cinema, com um propósito político e social. Os cineclubes garantem a democratização do cinema, abrem possibilidades de inclusão e participação.

Um aspecto não menos importante do que a exibição do filme, já destacado ao longo do texto, é o espaço de discussão após cada sessão, prática que também fundamenta o ativismo cineclubista. O cinema, aqui, não se trata de entretenimento, mas dispositivo que promove transformações a partir do olhar – o não visto a partir do visto. Marc Ferro destaca que educar significa reconhecer o não-visível nas imagens, ir além das aparências. O cinema pode e deve ser abraçado como uma instalação de educação para a autonomia, considerando a potência desses encontros em espaços alternativos de projeção, que podem ser desenvolvidos em lugares diversos, como salões comunitários, praças públicas, quintais ou espaços escolares, a partir da iniciativa de pessoas interessadas em ver, fazer circular e discutir os filmes, de forma gratuita e escolhidos coletivamente. Para cada sessão, o grupo pode destacar um participante ou pessoa convidada a comentar a obra. Pode ser um estudioso sobre a obra do cineasta exibido; sobre a linguagem cinematográfica; sobre os temas suscitados pelo filme. Ou podem ser alguns dos integrantes do grupo destacados a assistir previamente e anotar questões que o filme os provoquem a levar para o grupo debater. Independente do formato escolhido, o importante é que seja uma roda de conversa aberta, com respeito à horizontalidade da discussão, onde todas as pessoas são livres para manifestar as suas opiniões. Assim, o filme promove um espaço dialógico e dialético, alargando os horizontes. No caso do Cine Estrela, somo um grupo aberto às experimentações, com múltiplas formas de dialogar a partir da exibição. Já tivemos a presença de realizadores; especialistas na linguagem cinematográfica; pessoas estudiosas de um(a) determinado(a) cineasta ou de uma obra; enfim, a cada reunião, que acontece mensalmente, estamos abertos a pensar o formato da exibição em função do contexto.

O Cine Estrela, bem como todas as ações realizadas no Espaço Comum Luiz Estrela, acontecem sem qualquer tipo de financiamento, de forma autogestionada, a partir da iniciativa das pessoas participantes e colaboradores. O Cine Estrela conta com o empréstimo dos equipamentos de alguns dos seus integrantes e em cada sessão passamos o “chapéu” com o intuito de fazer uma caixinha para as pequenas despesas. Também realizamos uma campanha de doação de cadeiras e a partir da mobilização dos participantes e da rede de cinema envolvida no Núcleo (coletivos, grupos e pessoas), a cada mês, a partir da grade de programação construída, busca-se uma cópia das obras com qualidade adequada à exibição e, se for o caso, a autorização do realizador.

Este formato de sustentabilidade do Cine Estrela, bem como de praticamente todos os cineclubes espalhados pelo Brasil, sobrevivem em função do comprometimento das pessoas envolvidas, somado à paixão pela arte cinematográfica. Porém é fundamental destacar a ausência de políticas públicas garantidoras da democratização do acesso ao cinema no Brasil e à criação/expansão de experiências cineclubistas. Programas como o Cine Mais Cultura, voltado à prática cineclubista, que permitia a expansão deste movimento no Brasil, está paralisado, o que dificulta ou mesmo impossibilita que espaços alternativos de cinema sejam disseminados. Mas se por um lado faltam recursos para a expansão desta prática, por outro percebemos o quanto existe público para as iniciativas que possibilitam o acesso a filmes que jamais serão veiculados na TV ou raramente conseguem se estabelecer nas salas de cinema.

A adesão significativa de um público interessado em assistir filmes em espaços alternativos e dialogar a partir dessas obras, como no Cine Estrela, faz perceber a abertura que existe para a difusão da prática cineclubista, potencializando fendas, brechas, espaços de cinema comprometidos não apenas com a projeção aleatória de filmes (principalmente rompendo com aqueles comerciais de vertente hollywoodiana), mas numa perspectiva de apropriação da potência emancipatória que o cinema produz.

Cine Estrela
Local: Espaço Comum Luiz Estrela, à Rua Manaus, 348, Bairro Santa Efigênia
Dias de realização de sessão: Quinzenalmente
Contato: https://www.facebook.com/espacoluizestrela

[1] Fabiana Leite é realizadora de cinema, fotógrafa, mestranda em Educação pela UEMG e participante do Núcleo de Audiovisual do Espaço Comum Luiz Estrela.

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