Cinema e educação: o diálogo de duas artes

José de Sousa Miguel Lopes

Através da experimentação dos sentimentos e das emoções, a arte auxilia no encontro da identidade pessoal no mundo em que se vive. Durante este processo, o indivíduo não apenas entra em contato com o mundo sensorial, mas simultaneamente desenvolve e educa seus sentimentos através da prática dos símbolos artísticos.

A arte é a expressão da vida que, associada ao processo de criação, transforma-se na capacidade de exercer plenamente a condição de ser humano. A arte favorece o desenvolvimento integral do indivíduo, possibilitando a expressão livre do pensamento e das emoções, desenvolvendo seu raciocínio com criatividade e imaginação. Criando, o indivíduo torna-se mais seguro de seu potencial e consciente de seus limites; torna-se mais autêntico e livre para fazer suas escolhas.

A arte protagoniza as mudanças sociais e o processo de construção da sociedade. Ao longo da vida, o ser humano é inundado por conhecimentos pré-fabricados, como “receitas de bolo”, transmitidos de maneira hermética. Todos os instrumentos de uma vida prática parecem imunes às livres reproduções de valores, ideias e ideais. Havendo apenas uma repetição, não há espaço para os sonhos, fantasias e experimentação. Não sobra lugar para criar, ocasionando uma transmissão de respostas prontas e conservadas. Sem a oportunidade de realizar algo novo, que exprima simplesmente o que nós realmente somos, há o contínuo exercício das respostas determinadas e acabadas. O ato criador é renegado, abandonado e esta postura repetitiva cerceia a capacidade criadora, reflexiva e sensorial.

O cinema se tornou uma síntese de todas as artes, ao englobar quatro elementos – a saber: imagens (quer elas estejam ou não em movimento, ou em cores), sons, palavras e música. Como o teatro, aliás. Mas Jean-François Lyotard definiu bem sua diferença: o teatro é material, porque ele comporta a presença física de cenários e de atores, enquanto o cinema é imaterial, pois embora a máquina de projeção e a tela possuam de fato uma consistência física, ou seja, material, as imagens projetadas não estão lá, são imateriais.

Fazer arte na educação é formar um cidadão consciente, crítico e participativo, capaz de compreender a realidade em que vive. É preparar o jovem para a vida plena da cidadania, buscando formar de cidadãos que possam intervir na realidade, que possam ser instrumentos de transformação social.

Pode-se dizer, de modo geral, que a educação e a arte são compreendidas como a atividade humana vinculada a manifestações de ordem estética, criadas a partir de percepções, emoções e ideias. A abordagem desses temas na escola é um fio condutor da imaginação e da criatividade, inventando elementos, expressando sentimentos e manifestando diferentes formas de entender a vida.

O que poderá resultar do diálogo entre estas duas artes: o cinema e a educação? É esse o objetivo da breve reflexão que nos propomos fazer em seguida.

O Cinema como Arte

Quando se filma um evento real, a realidade que será projetada sobre a tela não será o evento ele mesmo, mas o fantasma dessa realidade passada, jamais a realidade em si, seja ela de um evento ou de um simples objeto. Ou que se trate ainda de imagens de ficção. Trata-se mesmo, no ato da filmagem, de uma realidade filmada, mas tão-logo as imagens são projetadas numa tela de cinema ou de televisão, não estamos mais diante dessa realidade anterior, estamos somente vendo o fantasma da coisa filmada.

O cinema hoje é tão visual quanto oral, quero dizer sonoro, e seu funcionamento concerne, tanto aos olhos quanto aos ouvidos.

Assim poderíamos dizer que pensamento e palavra são também imagens. Pois não é da palavra que vem o retrato das coisas? Se eu digo “cadeira”, formo uma imagem cerebral equivalente ao retrato do conceito de cadeira.

A palavra serve também como expressão de sentimentos, segundo um modelo bastante preciso e claro, eu diria, de explicação, e segundo um procedimento implicando quase o mesmo tempo que um rosto levaria para exprimir tais sentimentos.

Uma vez que pensamento e palavra são, igualmente, imagem, segue-se que o cinema enquanto imagem é a mistura do pensamento e da palavra.

A utilização de quatro elementos nos filmes, 1) a imagem, 2) a palavra, 3) o som, 4) a música estão compactados no conceito deleuziano de Tempo-Imagem, e são os elementos que caracterizam o cinema de hoje, em que cada um desses quatro elementos pode se tornar a todo momento o mais forte, o elemento preponderante, e ao limite o mais enriquecedor, o mais iluminador, de acordo com o papel que o realizador lhe dará.

Esses quatro elementos são redutíveis ao conceito de Tempo-Movimento, e que podem ser considerados elementos característicos do cinema de hoje. A palavra, em certas situações, pode ser o elemento mais forte e mais enriquecedor, assim como, sempre em certas circunstâncias, o meio mais rápido e mais eficaz de chegar às ideias ou aos sentimentos, ou de aprofundar os dois.

Não há nenhuma arte, nem o teatro, que iluda a vida como o cinema. Nem a pintura, nem a literatura, nem a arte abstrata. Quando você lê um livro, você é um realizador, porque está a pôr as imagens, a imaginar a cara dos atores, o vestir, o andar, tudo isso. Está a ver o seu filme. E geralmente quando o espectador lê o livro antes de ver o filme, como ele já realizou o seu filme, e ao ver o filme a tela não corresponde ao que ele realizou, ele já não gosta. Mas se não leu o livro e viu o filme, ele aceita. Depois vai ler o livro e ver no livro o filme que ele viu.

Nas últimas décadas do século passado, o cinema viu surgir no horizonte a TV, outro influente espaço imagético, com quem passou a rivalizar e que muitos se arriscaram a prognosticar que eliminaria o cinema. Não foi isso que ocorreu. As duas formas artísticas podem conviver, embora não devamos ignorar o que as distingue. Pensar a televisão é pensar uma mídia específica que demanda uma abordagem particular. Porém, de uma maneira reducionista, se o cinema estimula o pensamento, a televisão o paralisa. Se o espaço imagético cinematográfico é conflituoso, na televisão ele é conciliador. Se no cinema a questão do tempo surge como um conceito problemático que é preciso resolver, na televisão o tempo inexiste. Enquanto o cinema, mesmo com produções ruins provoca o raciocínio, mobiliza o pensar, a televisão, de um modo geral, empobrece esteticamente os sentidos, aliena de modo taxativo. Tudo isso precisa ser discutido na perspectiva de uma política audiovisual para as escolas públicas, sobretudo.

A educação como arte

A experiência da arte não só permite ao indivíduo encontrar-se como ser social, como também ao nível pedagógico, visto que é uma ótima fonte de conhecimento, permitindo uma maior facilidade de aquisição de saberes.

As artes fazem parte de uma esfera das emoções que estes indivíduos necessitam de exaltar. Esta forma de educação permite ter como principais objetivos a satisfação espontânea da criança, e através da arte estes são automaticamente atingíveis, como já foi referido, a exaltação imediata no ato de expressar as suas energias pulsionais – emocionais – sentimentais e a sua criatividade propondo como via metodológica a satisfação de outras necessidades: de ação (o fazer, o realizar, o recriar) e liberdade (espontaneidade, independência).

Sabe-se também que a arte é uma forma de expressão altamente criativa, visto que em qualquer tipo de arte é comum existir um cunho muito pessoal do seu autor, porque é algo que vem de dentro e é único. É de extrema importância que os indivíduos desenvolvam as suas capacidades artísticas, pois estas têm a capacidade de fazer com que o ato criativo a que são submetidos preencha as necessidades do seu dia-a-dia.

É importante transmitir às crianças, desde muito novas, a atividade artística e dar-lhes a oportunidade de desenvolver características como a autoestima, a curiosidade, a iniciativa e a cooperação através de métodos de trabalho muito criativos, com diferentes linguagens expressivas.

As artes revelam nos indivíduos um sentido de disciplina, responsabilidade e senso de cidadania, o que como se sabe é muito importante para o desenvolvimento da sua personalidade.

O indivíduo é formador de opiniões através de referências, sejam elas positivas ou negativas, que vão sendo adquiridas e experienciadas ao longo da vida. Como tal, o exercício da expressão e da criatividade são os elementos fornecedores de outro nível de conhecimentos, importantes para o desenvolvimento de um indivíduo que se pretende ativo e interveniente na sociedade. A variedade de conhecimentos vai propiciar, e estimular, a sua intervenção nessa mesma sociedade, sendo esta uma consequência da criatividade.

O cinema de mãos dadas com a educação

Ao levar o cinema para a sala de aula deve-se pensar o modo como ele pode ser utilizado como ferramenta primeira de reflexão, fazendo com que, por exemplo, após se analisar criticamente uma película cinematográfica o aluno procure complementar e aprimorar seu raciocínio através do estudo das matérias do currículo; e que esteja preparado para propagar este conhecimento adquirido, mais uma vez, através do cinema, de forma similar ao processo que se deu com ele.

Os objetivos do diálogo entre educação e cinema devem, pois, centrar-se em:

  • Pensar o cinema como forma artística que se apresenta ao expectador como real; que este seja o ponto de partida para uma reflexão crítica sobre questões políticas, filosóficas, sociológicas, antropológicas e educacionais.
  • Despertar o interesse pelo estudo, auxiliando a formação de agentes multiplicadores do pensamento crítico.

O olhar cinematográfico enriquece nosso olhar sobre a educação e sobre o processo escolar. O cinema pode ser definido como uma educação informal, que necessita de uma metodologia para melhor aproveitamento na sala de aula. O cinema atua como um elemento de aprimoramento cultural e intelectual dos docentes e dos discentes. E, ao mesmo tempo, problematiza para além da ciência da história o uso do cinema no campo da educação. E assim retornamos ao tema deste texto: Por que cinema e educação?

A educação necessita lançar um olhar crítico sobre o cinema. Precisa se libertar da crítica especializada e construir seu próprio corpo teórico visando a fins específicos. O cinema é um meio de reflexão da sociedade. Esse meio só depende dos educadores para atender fins educacionais. Depende do que se entende por educação com utilização de recursos midiáticos.

Muitos educadores se esforçam para a construção de um olhar cinematográfico que possibilite a renovação de práticas pedagógicas. Ciência artística ou arte científica, conjugação da razão e da imaginação, do rigor e da intuição, o cinema deve ser o agente de uma nova educação que dote o sujeito de uma razão sensual, isto é, de uma razão estética que saiba debruçar sobre si mesma e saiba explorar as possibilidades de um mundo melhor, de uma sociedade de não-excluídos.

A sala de aula cinematográfica deve oportunizar que os alunos tenham uma cosmovisão do mundo, da sociedade em que vivemos, e entender que as relações de produção de nossa época informam sobre o sentido e significado do nosso presente.

O pensar a sociedade sobre o cinema reforça a ideia do filme como sala de aula. O filme educa no sentido que amplia e questiona nosso conhecimento dos contextos em aparência familiares e facilmente nomeáveis.

Educar pelo cinema ou utilizar o cinema no processo escolar é ensinar a ver diferente. É educar o olhar. É decifrar os enigmas da modernidade na moldura do espaço imagético.

Para Adorno, a arte virou consumo industrializado e, como tal, padronizado, como tabletes de chocolates ou qualquer outro tipo de produto da indústria. A arte que teria a capacidade de fazer um retrato sincero da existência humana foi despersonalizada, inserindo-se no que Adorno designou como “Indústria Cultural”.

A industrialização da cultura não só padroniza todos os meios de expressão artística como impõe o consumo para todos os tipos de idade, principalmente jovens que não são induzidos ao olhar crítico, à observação. Eles consomem a imposição da indústria como, por exemplo: filmes adolescentes que tratam do sexo e erotismo de uma maneira fácil, vulgar e superficial; filmes de ação e guerra que delegam a vida a segundo plano, onde assassinatos não são percebidos como assassinatos e sim como forma de diversão, a forma de espetacularização da vida; dramas chorosos onde a apelação para a emoção do espectador ultrapassa qualquer sentido emocional, sempre colocando os telespectadores como alienados.

Para J.M.L. Peters (apud Ribeiro, 2002), é comum os pais e educadores insurgirem-se contra a violência na televisão e no cinema e o efeito que esta tem sobre os jovens. Estas mensagens terão eventualmente efeitos nocivos sobre os jovens mal formados e/ou sem conhecimentos necessários à interpretação de uma obra no contexto cultural, sem conhecimento da envolvência artística e social e mesmo devido à incapacidade de compreensão de mecanismos da linguagem cinematográfica e da narrativa.

O problema é a passividade do espectador, que, sem cultura cinematográfica, sem posse dos instrumentos e dos procedimentos da linguagem da sétima arte, não assimila as possibilidades comunicativas do cinema.

Cinéfilos e consumidores de imagens são, em geral, espectadores passivos. Na realidade, são consumidos pelas imagens. Aprender a ver cinema é realizar esse rito de passagem do espectador passivo para o espectador crítico. É neste enquadramento que se torna necessário desenvolver o espírito crítico do espectador que permite julgar e apreciar a obra fílmica. Esta “educação cinematográfica” implica também uma formação estética na perspectiva de que a experiência 8 artística é indispensável à formação harmoniosa da personalidade. A abordagem de aspectos sociais, morais e espirituais é outra faceta promovida pela educação cinematográfica dado serem estas as temáticas abordadas pelo cinema.

Filmes que em aparência confirmam o sistema devem ser desmistificados no processo educacional, no processo escolar. Adotar uma atitude de desprezo diante de fenômenos comerciais significa, em alguma medida, compartilhar e alimentar a alienação de amplas camadas da população e, como é óbvio, das novas gerações. É fundamental ver e analisar com os alunos alguns filmes “modelos” dos principais gêneros do cinema hegemônico (“western”, policial, de guerra, romântico, catástrofe, musical, de terror…) e procurar fazer a crítica desse cinema. Este será um bom ponto de partida, para em seguida, iniciar os alunos num repertório intelectual e cinematográfico mais sofisticado.

Em muitos filmes, vemos que o cinema pode cumprir um papel saudável e esclarecedor no processo de escolarização e no campo educacional como um todo. Não há como compreender a comunicação imagética sem o pensamento, sem o esforço intelectual. O acesso fácil às imagens não quer dizer um fácil entendimento de suas formas.

Os filmes têm sido tratados mais como meios (recursos) e menos como objetos de ensino quando trazidos à escola básica. Raramente são explorados no seu potencial de veículo das representações sociais. Menos ainda no que se refere à pesquisa sobre o imaginário social (Turner, 1997).

É nesse sentido que tomamos a expressão “empresa epistemológica” de Xavier (1983) para dar sustentáculo à nossa perspectiva. Entendemos que se, por exemplo, tomarmos os filmes que tratam de escola e que têm o professor como protagonista, podemos de certo modo recolher informações sobre as “representações sociais” sobre a escola, ou sobre a maneira como o imaginário social representa a escola e a atividade docente.

Educar para o cinema

Educar é ir além das aparências. Educar significa reconhecer aquilo que o historiador Marc Ferro (1993) chama de não-visível nas imagens. Ferro criou um eficaz modelo de análise fílmica. Ele revela que no cinema a história surge como contra-história, uma história crítica da historiografia oficial. Para Ferro, a contra-história no cinema está condicionada ao processo de produção do filme.

A introdução da linguagem cinematográfica nas escolas possibilitará uma nova dimensão ao espaço mental dos alunos. Daí necessidade de existir uma aprendizagem do cinema no campo educacional, uma verdadeira alfabetização cinematográfica. Esta alfabetização deveria começar logo no ensino fundamental, mas nunca é tarde para que ela possa ser introduzida em níveis mais 9 elevados do sistema educacional. É hoje impraticável conceber um jovem que não saiba ler e escrever os caracteres da sua língua materna que lhe darão acesso a controlar, compreender e usar a linguagem. Hoje em dia, a imagem em movimento, nas suas várias vertentes, do computador à televisão passando pelos jogos interativos e partindo do cinema, povoam o cotidiano e o imaginário de todos nós e particularmente dos jovens, pelo que será impraticável no curto prazo não saber ler e escrever a linguagem da imagem em movimento, que tem as suas características próprias, como todas as linguagens, de que se salienta a versatilidade e a novidade.

Em alguma medida, é aqui que reside o cerne da questão do ensino artístico, mas também a sua virtude, criando pontos de equilíbrio, alternativas metodológicas, funcionais, formativas, a alunos cada vez mais abertos a todo o tipo de estímulos a que a escola tem de dar resposta, sob pena de se transformar numa instituição pesada e desinteressante do ponto de vista pedagógico.

É neste quadro que o ensino-aprendizagem do cinema e da linguagem cinematográfica tem pertinência, permitindo vitalizar a aquisição de conhecimentos, potenciar formas de expressão, desenvolver o juízo crítico. Educar quer dizer contribuir para o desenvolvimento harmonioso de uma pessoa por meio de boas relações com a realidade em que tal pessoa vai vivendo. Assim, a educação não pode ser concebida como qualquer coisa estática, à margem da experiência concreta do educando. Todos os estímulos, todas as componentes de tal experiência devem ter lugar na atividade educativa cotidiana.

Se a sala de aula é um espaço da discussão e da reflexão, o filme é este mesmo espaço ampliado em uma escala maior, em que seus procedimentos formais e narrativos passam a ser a linha condutora do viés educacional.

Podemos pensar o processo educacional como um processo de descoberta de si. Uma linguagem artística afetiva à qual o público tem acesso de modo geral. Contudo, é necessário deixar claro que o cinema não abole nem propõe o abandono do quadro preto. O processo educacional tem tomado consciência que o quadro preto foi ampliado para a tela do cinema, para o televisor, para a telinha do computador, para a web, para o outdoor, para a camiseta impressa com silkscreen, para a tatuagem e para a indumentária punk.

A tarefa de exibir filmes na escola, modificando a prática pedagógica do ensino e da aprendizagem, é um fato em processo e uma tarefa coletiva de educadores de todas as áreas de conhecimento.

Temos observado que o cinema cada vez mais está sendo objeto de estudos e teses acadêmicas. Muitos educadores se esforçam para a construção de um olhar cinematográfico que possa na renovação das práticas pedagógicas. Ciência artística ou arte científica, conjugação da razão e da imaginação, do rigor e da intuição, o cinema deve ser o agente de uma nova educação que dote o sujeito de uma razão sensual, isto é, de uma razão estética que saiba debruçar sobre si mesma e saiba explorar as possibilidades de um mundo melhor, de uma sociedade de não-excluídos.

Considerações Finais

O uso da arte cinematográfica na educação aponta para um cenário em que as respostas moldadas e impermeáveis não podem mais ser seguidas por pontos finais. Devem, sim, serem levadas para “seres humanos pensantes”, que possam reconstruí-las e adaptá-las às suas realidades e às suas necessidades. A 7ª Arte na educação busca a intensificação do interesse por novas criações, pela reflexão e pelo desenvolvimento de uma capacidade crítica, visando à formação de sujeitos ativos e autênticos. É exatamente neste sentido que a o cinema na educação atua como veículo de transformação e um canal para o vislumbre de novas possibilidades, novos horizontes.

O aluno deve ser trabalhado na sua totalidade: corpo, mente e espírito. Através desse processo, ele automaticamente vê a razão sob uma nova ótica. Na verdade, a inserção do cinema na Educação propõe uma releitura integral e profunda do processo de aprendizagem, e não apenas de forma verborrágica.

Educar com o cinema, educar com arte, significa educar através do contato com o outro, do despertar dos sentimentos e da troca. É sair de si mesmo para enxergar o outro. O que se almeja é que a descoberta interiorizada de sentimentos reais evolua para a externalização dos mesmos de maneira consciente e engajada.

O aluno não pode ser manipulado como objeto. Deve ser tratado como ser humano único, próprio, espontâneo e com diferenças individuais que anseiam por se manifestar. O ser humano não pode ser encarado como uma máquina copiadora, mas como algo novo, extraordinário e excepcional. Não pode ser moldado ou sufocado, mas orientado para expor toda a sua originalidade, sua criatividade, reflexão, sua tendência para a liberdade, para a auto-criação, sua capacidade de auto-limitar-se e de aspirar, e o seu poder de inquietação interior que o impele até mesmo para o transcendental.

Ao invés de se desenvolver trabalhos impessoais, onde o educando apenas recria e transcreve as técnicas aprendidas, o cinema o estimulará a se retratar em suas produções artísticas. Desta maneira, o educando é capaz de manifestar a sua própria realidade, com todos os seus conflitos e desejos. Essa possibilidade que se abre contribui em muito para o amadurecimento do indivíduo, para o seu auto-conhecimento, para o despertar dos seus sentimentos, para a manifestação de suas próprias opiniões e, principalmente, para o verdadeiro sentido do “viver em grupo”.

Devemos saber dos acontecimentos como possibilidades, mas nunca como limites definitivos ou intransponíveis. O papel do cidadão não pode ser apenas o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém. Não podemos ser apenas objetos da História. Devemos ser sujeitos ativos. Ninguém pode estar no mundo de uma forma neutra, passiva, de braços cruzados. A chave que tanto procuramos está e sempre estará nas mãos de cada um. Chegou a hora de transformar. De transformar com arte. Faz-se necessário mudar! E não será este diálogo entre o cinema e a educação um dos mais profícuos e estimulantes fatores de mudança?

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