Espelho Mágico

Daniel Fagundes – Núcleo de Comunicação Alternativa/SP

“Se você pensa que eu não penso, lhe asseguro: Eu estou ficando louco…
Você pensa que engoli o nó que trago sem descer no meu pescoço”
(Alceu Valença – Vivo “1976”)

Quando nós do NCA começamos a fazer exibições públicas na Zona Sul de São Paulo o intuíto era primeiro possibilitar que algumas produções que normalmente não chegavam ao conhecimento dos moradores do bairro fossem vistas conjuntamente e sempre que possível debatidas. Outra coisa era permitir que a população tomasse ciência de que pessoas daquela ou de outras regiões também produziam seus vídeos e estes falavam de nossa própria realidade por um olhar comum. Nessa época em meados de 2006 explodiam diversas oficinas de vídeo e o surgimento de grupos que produzia era cada vez maior, porém as estratégias de exibição e distribuição eram poucas.

Nós tínhamos diversas idéias de como fazer uma exibição e pensávamos em vários lugares possíveis. Já nessa época um dos espaços que chamava a atenção eram os campos de várzea. Mas antes de efetivamente fazermos alguma exibição nesse espaço nós circulamos por vários lugares, como: Vielas, bares, escadões e sedes de espaços culturais (Ongs, associações de bairro, etc). Várias situações foram nos preparando para pensar a exibição como uma intervenção urbana que merecia uma atenção especial, como um projeto de formação de público. Uma constatação imediata foi a percepção de que a maior parte do público era composto por crianças, seguidos de senhores e senhoras idosas, e moradores de rua, somado a um ou outro jovem ou adulto que por ali passava e ficava, ainda que por muitas vezes reclamando do filme. Pois para eles ou era muito infantil ou adulto demais, ou não estavam entendendo nada. Já as crianças mesmo que inquietas eram atenciosas e reclamavam mais quando a pipoca acabava do que quando o filme não lhes agradava. Faziam o coro dos entusiastas os bêbados e moradores de rua que exclamavam com alegria a cada cena que lhes chamava atenção.

Além das impressões do público o que sempre deu o tom da exibição eram os espaços, sua geografia, sua diversidade e suas latentes necessidades. De cara o grande desafio era fazer exibição competindo com o som alto do bar tocando forró, do carro que passava pulando por conta do volume do funk, com os cães latindo, elementos da própria paisagem sonora do lugar, já comumente composta por sons diversos de reformas barulhentas, motos estalando, carros, caminhões e ônibus. Mas relatando assim parece mais impressionante do que normalmente é, pra quem mora no lugar os sons já são quase impercepitiveis. Nesses lugares o espaço ocupado de forma desordenada nunca deu a ênfase merecida ao potencial cultural das áreas públicas. Até por que todo lugar mais ou menos livre era um potencial lugar para construção de moradia. Assim sendo, vários fatores iam gerando novos desafios para a realização de uma projeção de filme, como, falta de energia elétrica próximo das possíveis áreas de lazer, falta de limpeza e manutenção do espaço, enfim não havia e ainda não há um local pré estipulado para atividades culturais estruturadas nesses locais à não ser os CEUs. Mas estes nessa época eram ainda em pouco número e dentro das favelas mesmo eram pouquíssimos, que com o decorrer dos anos foram se tornando espaços cada vez mais burocráticos.

Contudo para cada um dos problemas sempre arrumamos alguma saída. E na maioria das vezes os próprios moradores é que resolviam a situação. Por exemplo a energia elétrica era sempre cedida por alguém, que não se preocupava em ceder, já que tinha “gato de luz” em casa, mas aí vinha outra questão: quem se disponibilizava estava longe e para ligar os equipamentos precisávamos de extensões gigantescas que por sua vez eram desligadas de tempos em tempos pelos carros que passavam sobre as tomadas ou por tropicões involuntários. E se não bastasse isso, ainda tinha a questão da própria capacidade da corrente em suportar todos os equipamentos ligados. Mas a boa vontade acabava sempre vencendo esses intempéries e a população se integrava a iniciativa de forma fantástica, uma estratégia pedagógica involuntária que emergia da necessidade e transformava à todos em produtores do evento. E assim seguiu, se não tinha onde estourar pipoca alguém oferecia a própria casa, se não tinha pipoca alguém doava, se faltavam cadeiras o povo trazia cada um a sua ou fazíamos dos degraus do escadão nossa sala de cinema stadium, se não tinha nem um nem outro a galera levava vassouras pra praça e limpava o chão pra gentaiada se sentar. Era bonito de ver. Depois disso só restava sentar e assistir. Mas qual era o melhor filme? Como decidir isso?

À partir dessa indagação avaliavamos várias coisas, uma era a classificação indicativa, nada com muita censura, mas prezávamos por não passar cenas de sexo explícito ou imagens de violência extrema. Era básico já que o maior público sempre foi composta por crianças. Lembro de ouvir certa vez, o Pixote do coletivo CineBecos citar que quem mandava na rua eram as crianças e não os traficantes e ali nas exibições isso se fazia cada vez mais evidente. Apesar também de já termos passado por situações onde tivemos de negociar o espaço com os trabalhadores do movimento. Normal, eles também faziam parte da diversidade cultural do lugar. Assim como os vendedores de hot dog, os pivetes soltando pipa, as donas de casa, os cachorros e os capoeiristas. E isso só fazia bem, pois religava as pessoas da comunidade, mesmo que por pouco tempo, permitia o encontro e a troca.

Uma vez fomos chamados por um mestre de Capoeira do Grajaú para exibir um filme que ele tinha pego emprestado no nosso acervo da Videoteca Popular*. O filme era “Quilombo” do Cacá Diegues e ele queria que nós fossemos exibir em sua aula de capoeira para crianças na associação de moradores do Pq. Cocaia. De primeira pensamos que seria um fiasco, mas não recusamos o pedido considerando que seria aberto para todos da comunidade que também quisessem assistir, porém não podíamos deixar de achar que o público estranharia a estética do cinema novo. Mas, felizmente, nós estávamos completamente enganados! O mestre tinha feito várias aulas de história da África e do Brasil no decorrer de seu curso e tinha lançado um desafio para a mulecada. Colou várias datas importantes nas paredes da associação e nos pediu que parasse o filme nas cenas que ele havia decupado. Aí a sessão virou uma gincana, quando apareceram os navios negreiros ancorando nos portos brasileiros, paramos o filme e ele perguntou: -Chegada do primeiro navio negreiro no Brasil?! E foram todos correndo para a data exata colada na parede. Aí quem acertava ganhava um chaveiro de berimbau, uma camiseta ou um DVD de capoeira. Foi fantástico as crianças que tinham entre 7 e 12 anos e ficaram vidradas vendo o filme cena por cena e não erraram uma data sequer, nascimento de Zumbi, quem foi Gamga Zumba, tudo na ponta da língua. E no final ainda tivemos uma surpresa fenomenal. Uma senhora da comunidade se aproximou e falou: -Nossa, eu adoro cinema novo, vocês podiam vir mais vezes passar estes filmes aqui, não? – Nisso já estávamos de queixo caído, mas ela ainda concluiu: -É que eu adoro esse tipo de filme, principalmente o neo realismo Italiano, Vittorio de Sica, Feline, são filmes que eu adoro e acho que tem muita relação com o cinema novo. Foi realmente surpreendente, mas não haveria de ser.

De alguma maneira nós quando chegamos nos espaços para exibir, pautados por um pensamento engessado de formação de público, raramente nos damos conta de que ali já existe um sistema cultural forte, ancestral e com muito a nos transmitir. É fato que contraditoriamente há uma enorme carência também, que por muitas vezes é fruto de uma educação escolar precária e da aniquilação dos saberes históricos que o povo vai sendo ensinado a esquecer. E nosso imaginário só vê as necessidades, esquecendo que as pessoas que estão ali são tão capazes quanto nós de ver e discutir filmes e vídeos mais complexos. Efetivando uma das piores exclusões que o sistema demonstra para conosco que é a exclusão política, e isso fica maquiado atrás de discursos que enfatizam que pobre só gosta de rap, filme hollywoodiano, e tem mais é que ficar batucando em lata nos coquetéis de financiadores de projetos sociais. Podemos e devemos estar para além de nossas fronteiras mentais e geograficas para nos contaminarmos do que é nosso quanto humanidade. E até para perceber o quanto a nossa realidade é parte de um processo histórico e cultural anterior à nós.

Foi por meio destas reflexões que chegamos a efetivação de um sonho antigo, o “1º Festival de Cinema de Várzea” que levou para os campos de várzea do Grajaú uma série de filmes e vídeos independentes de todo o território nacional com o tema “futebol, samba e direitos humanos”. Evento que foi à cima de tudo uma celebração das riquezas culturais do lugar, pois além de filmes e vídeos exibidos nos 8 dias de evento tivemos ainda roda de samba, teatro, mesa de debate e muito futebol com vários times de várias faixas etárias.

Foram oito dias onde o público mostrou seu poder de voto consciente escolhendo a cada rodada qual vídeo mais agradava e merecia ir pra final. As sessões aconteciam como um campeonato e a cada grade de curtas e médias metragens o voto popular elegia um finalista. Foi muito bacana, pois o público que era circulante nesses espaços fazia questão de estar até o final para definir sua preferência. Houveram várias surpresas dentre elas a emocionante disputa de penaltis que mandou pra final o curta “Contos da Várzea” e a carreata do pessoal do Jd. Rosana que levou família e amigos para votar no curta ”Pizza na Quebrada”. A final então foi “Só Alegria”, ou melhor foi “Estrela D’Alva”. O rachão entre esses dois times foi de tirar o Ibope da copa do mundo que ocorria paralelamente sem destaque. Deu treta, deu abraço, e até choro. O jogo ganho pelos anfitriões do Estrela D’Alva foi comemorado na sessão com muito fervor, filme passando gente conversando, gente viva e feliz discutindo temas como habitação, mídia, tráfico e por que não futebol. Foi muito loco ver os vídeos “Contos da Várzea”, “Lamento Paulista” e “Canto do Acauã” compondo a tríade vencedora, ótimos trabalhos premiados por quem normalmente só tem direito de aceitar o que lhe é passado, sem poder opinar. Foi mágico, foi de fato a efetivação da idéia de espectador. Palavra que vem do Grego especulucum que significa espelho. Pois ali se demonstrou que quem se vê devolve seu reflexo, sua impressão. O público não deve ser passivo e normalmente não quer ser assim, mas precisa de oportunidade para exercer seu direito a voz. Pois o mais revelador do espelho é o que ele entrega de nós mesmos e à partir disso as melhores relações se constroem, aquelas onde aprendemos a conviver e a transformar nossos erros e acertos.