Kitoko e Txahuã: as crianças Maxakali e Pataxó

06 / janeiro / 2015 — 5:30 — Rolimã

POR BÁRBARA PANSARDI

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Toda noite, antes de dormir, Dona Noemia transmite a seu neto alguns de seus cantos. Não são músicas quaisquer ou canções de ninar, como poderia supor um observador desavisado. Noemia é Maxakali e, entre os indígenas de sua etnia — que habitam a região do Vale do Mucuri, em Minas Gerais —, um canto é, ao mesmo tempo, um espírito que se deve cuidar e conhecimento transmitido entre gerações.

Com sua fala mansa, ela acompanha o menino, que reproduz a melodia que diversas vezes já escutara dos lábios tão familiares. Se por acaso ele se equivoca em algum verso ainda não memorizado, a simpática senhora, bonachona como normalmente são as avós, corrige- o pacientemente. “A ‘zente’ canta junto. Se ele canta errado, eu digo: ‘não é assim’”, explica Noemia, com o sotaque próprio de quem não tem o português como língua nativa.

Os cantos-espíritos são chamados yãmiy. Para se tornar um ser humano completo, a pessoa maxakali precisa possui-los, e possui-los significa aprendê-los, memorizá-los, não esquecê-los. Assimilar cada melodia, cada verso, cada tom, cada refrão equivale a assimilar conhecimento, adquirir responsabilidades, constituir-se sujeito.

Para os Maxakali, o conhecimento pertence ao mundo dos espíritos. Ao longo da vida, esses índios recebem vários yãmiy para realizar seu processo de amadurecimento como ser humano. Trata-se de um longo percurso de aprendizagem que começa na infância e se prolonga por toda a vida, até que a pessoa se torne, ela própria, um canto ao morrer. O destino pós-morte da alma dos viventes (koxuk) é transformar-se em yãmiy. Gente com alma de canto – eis o que são os Maxakali.

Filhos das águas

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O teto circular da cabana de sapê harmoniza com o balanço das fibras soltas das tangas. Além do saiote, usam vistosos cocares, colares de sementes, bustiês de contas coloridas, brincos de penas e adereços de cabelo. Os homens carregam seus maracás (chocalhos), ao passo
que as mulheres fazem soar os paus de chuva — cilindros em cujo interior é colocado cascalho, de modo a forjar o barulho dos pingos d’água. Estão pintados com o preto do jenipapo, o vermelho do urucum e o amarelo do barro.

Na Festa das Águas, uma das principais celebrações da etnia Pataxó, cantam e dançam o Awê – manifestação que convoca os espíritos bons e guerreiros. Quando se aproxima o momento do banho, dirigem-se à piscina natural e então saltam, entregando-se ao fluido purificador. Da água vieram, a ela retornam.

De acordo com sua cosmologia, os Pataxó surgiram dos pingos de chuva advindos de uma grande nuvem que certo dia se formou no céu. Guerreiros filhos das águas, chamam-se Pataxó porque, segundo diz a lenda, os fonemas da palavra lembram o barulho das ondas chegando à orla da praia (“pat”) e recuando de volta ao mar (“txó”). Hoje, distantes da sonoridade da beira da praia que originou seu nome, vivem muitos deles em Carmésia, município da região central de Minas.

Herdeiros da floresta

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Contra a luz do entardecer, centenas de formigas aladas tentam escapar da captura dos meninos da aldeia pataxó Encontro das Águas. As tanajuras iniciavam, com a sua revoada, o ciclo de reprodução; saíam com o propósito de formar novos formigueiros. Enquanto elas
alçavam o voo nupcial, as crianças se divertiam na tentativa de agarrá-las pelas asas.

Na aldeia, os elementos da natureza são parte da vida cotidiana e compõem o universo lúdico. Com as frutas, deliciam-se durante as tardes que passam sobre as árvores; com as pedrinhas, caçam passarinhos; com as sementes ou penas, fazem artesanato; com o barro, modelam suas bolinhas de gude. Até mesmo os insetos são entretenimento.

Os povos indígenas têm profundo conhecimento de seu território e com ele mantêm uma relação fundamental. Fundidos ao ambiente em que vivem, os Pataxó de Encontro das Águas são, eles próprios, nomeados como animais, árvores, frutos e ervas. Parajú, de 11 anos, leva o nome de um tronco de madeira de lei; Mahião, também de 11, é o menino Sol; Guarú, 9, foi batizado como uma fruta que se encontra na beira da praia; Aruanda, 13, recebeu a alcunha de uma erva bastante utilizada em rituais; Amesca, 2, representa a resina de uma árvore que, segundo diz a lenda, são as lágrimas de uma índia guerreira que morreu para salvar seus filhos.

Crescem em meio à mata, nas cachoeiras, pendurados aos galhos. Aos 4 ou 5 anos, já são exímios subidores de árvores. Sabem listar nomes de frutas das quais pouco se ouve falar nas cidades – araçá, tucum, aperta-cu, murta, entre outras —, reconhecem espécies de aves pelo canto
e identificam, pelas pegadas no solo, os animais que rondam a região.

Entre os Maxakali de Aldeia Verde, em Ladainha, a conexão com o território é igualmente relevante. “O mais importante pra nós é terra, mata e água”, expõe a professora Maíza Maxakali. A assertiva tem tom de reivindicação e lamento. As terras que hoje ocupam, além de não possuírem cursos d’água, estão degradadas e reduzidas a pastagens. Apesar das dificuldades, a pesca e a caça ainda figuram entre os passatempos favoritos das crianças, que muitas vezes os realizam em propriedades vizinhas de fazendeiros.

Num breve passeio, meninos e meninas demonstram seu conhecimento com relação às plantas, apresentando-me uma grande variedade de fores e folhas que arrancam pelo caminho. A cada nova espécie exibida, ensinam-me seu nome em tikmũ’ũn yĩyax – idioma maxakali. Impressiona que sejam capazes de extrair tamanha diversidade de um ambiente já tão desmatado. Eu vejo apenas mato, mas eles me abrem os olhos para pequeninas flores de grande beleza, as quais passariam ao largo não fosse o acurado olhar que eles lançam sobre a natureza.

Seus próprios cantos são, muitas vezes, sobre a fauna ou a flora. Tem-se, por exemplo, o canto-espírito do lobo, da folha da árvore, do gavião, do morcego, da mandioca e assim por diante. Conhecimento é, para eles, aprendizado sobre o meio ambiente que os circunda, traduzido em lirismo, verso e melodia.

Hora do recreio

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No relógio pendurado sobre o quadro negro, o ponteiro está parado. A aula deveria começar às 7h, mas o horário nunca é muito preciso. São eles que regem seu tempo e não o tempo que os rege. Exceto pela hora da merenda.

A essa altura, há muito um relógio já reclama: o biológico. Vários estudantes maxakali chegaram à escola apenas com um café preto na barriga. Por vezes, sequer isso. Às 10h30, então, religiosamente, são dispensados. Correm até suas moradas e rapidamente retornam com pratos, vasilhas, panelas e até mesmo jarras. Tudo serve de recipiente para colocar a merenda de arroz, feijão, macarrão e um pouco, às vezes bem pouco, de proteína.

Mantida com recursos públicos estaduais, a escola indígena é uma imensa conquista para esses povos. Gerida pelos próprios professores indígenas e pela comunidade, valoriza os saberes tradicionais e se adequa à realidade local.

Entre os Maxakali, a instituição escolar foi apropriada como um espaço que formaliza a transmissão de conhecimentos orais que há muito já vinham sendo ensinados pelos antepassados. Em lugar da ciência do mundo não-índio, optaram pela alfabetização na língua materna e pelo ensino das práticas ancestrais. O português é lecionado somente depois que o estudante fnaliza o processo de alfabetização no idioma nativo, já na adolescência.

Os Pataxó vivem um processo inverso. Tendo perdido seu idioma original, tentam, hoje, revitalizar a língua com o auxílio dos mais velhos. Nas suas escolas, o patxohã (língua do guerreiro pataxó) é ensinado e recuperado, porém ainda restrito a algumas frases, palavras ou músicas.

Diferentemente do que ocorre com os Maxakali, a escola pataxó abarca tanto as disciplinas regulares de português, matemática e ciências quanto as específicas da realidade indígena – cultura, uso do território e língua. “São ciências diferentes a do mundo lá fora e a nossa aqui da aldeia. Mas a gente tem que preparar o aluno para estar com um pé na aldeia e outro no mundo”, avalia Lucidalva, professora da aldeia pataxó Imbiruçu.

Entre a obrigação e a diversão: ensaio para a vida adulta

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Sentadas sobre um pano estendido diante da casa, as mães observam seus filhos brincarem enquanto montam colares e pulseiras, costuram seus vestidos ou fazem bolsas e terrês (redes para pescar). As filhas um pouco mais crescidas as acompanham nessas atividades. Observando os cortes à mão dos tecidos e a cosedura das linhas, assimilam os moldes da vestimenta típica. Fitando atentas, aprendem como se faz a linha de embaúba, emaranhando a fibra extraída da casca da árvore e aprumando-a na coxa, num movimento longitudinal que enrola o fio até o joelho e depois de volta junto ao corpo.

Varrer e cozinhar são também responsabilidades domésticas que as meninas assumem desde cedo. A limpeza do chão é realizada com um punhado de folhas secas que, amarradas a um cabo de madeira, são convertidas em vassoura. Já a preparação da comida costuma ser realizada na área externa das habitações, sobre o piso de terra batida.

Se das meninas se espera que aprendam a cuidar da casa, fazer comida, confeccionar artesanato e costurar vestidos, as obrigações dos meninos, por sua vez, estão mais relacionadas à vida ritual. Entre os 5 e 8 anos, eles, que até então pertenciam à esfera doméstica das mulheres, são convocados por yãmiy. Durante o ritual de iniciação (taxtakox), os meninos são levados para a casa cerimonial (kuxex), cujo acesso é restrito aos homens. Ali, separados de suas mães e outras mulheres, passam um mês, período durante o qual são introduzidos na arte de lidar com os espíritos e aprendem sobre yãmiyxop (rituais).

Relacionada às competências religiosas está também a caça, tarefa que os meninos devem aprender a realizar. Desde tenra idade estão sempre correndo de um lado para o outro, adentrando a escassa mata da aldeia. Vez ou outra, é possível avistá-los com arco e fecha pendurados nas costas, segurando seus badoques ou ostentando nas mãos algum animal capturado.

Na aldeia, as práticas recreativas estão muito ligadas aos papéis sociais. É na brincadeira que eles começam a se apropriar das atividades que compõem a rotina local. Arco e fecha, bodoque, artesanato, pesca ou canto estão presentes no dia a dia das crianças não por seu caráter obrigatório, mas porque são também um passatempo. Trata-se de uma vivência lúdica. Brincando, ensaiam suas responsabilidades e se preparam para a vida adulta.

Aldeia Global

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“Índio tem celular?”, perguntam a Ludmila através do aplicativo de troca de mensagens whatsapp. A adolescente de 13 anos, que vive na aldeia Sede, em Carmésia, retruca: “Ih menino, a gente tá no século 21!”.

Assistem televisão, jogam videogame, navegam na internet e acessam as redes sociais. Sim, índios podem fazer tudo isso. Embora uma parcela
significativa se encontre em situação de vulnerabilidade social (leia no quadro abaixo), não se trata de uma população completamente alijada do acesso a serviços e bens de consumo. Estão cotidianamente expostos aos produtos das indústrias fonográfica e televisiva.

Amaila, 4 anos, menina doce de cabelos cacheados que vive na aldeia pataxó Imburuçu, tem uma boneca Polly e outra do desenho animado Monster High. No seu quarto branco e lilás, a roupa de cama das Princesas da Disney disputa espaço com pelúcias da Galinha Pintadinha e de Dora Aventureira. Ela veste um chinelo da Barbie e uma camiseta do Patati Patatá, mas, pra ficar ainda mais bonita, vai passar o blush do estojo de maquiagem que acabou de ganhar.

Em Encontro das Águas, as meninas morrem de amores pela dupla sertaneja Fred & Gustavo. Enquanto contam sobre a visita que eles fizeram à aldeia quando vieram a Carmésia para um show, suspiram. Os meninos fazem caras de desgosto, mas sabem de cor toda a discografia.

Na terra indígena maxakali, em Ladainha, predomina o forró. Gênero muito apreciado pela etnia, há sempre alguém escutando o ritmo,
que embala as tardes locais. Eles têm, inclusive, suas próprias bandas, que compõem letras em idioma nativo.

Os Maxakali são relutantes em admitir que a infância de kitoko (criança) possa ter qualquer coisa de semelhante com a vida de meninos e meninas da cidade, mas a música, não sem razão, é o canal que evidencia referências semelhantes. As crianças dominam um vasto repertório de canções que tocam no rádio e na TV. Ainda que não tenham uma dicção fonética precisa das palavras em português, cantam músicas do Chaves e também das novelas Carrossel e Chiquititas. Além das baladas televisivas, demonstram conhecer o Lepo Lepo, Louca Louquinha, Ah Leleke, Piri Piradinha e outros hits populares.

Brincadeira de guerreiro

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“Toco derruba, derruba o toco”, gritavam exaltados enquanto, dentro da roda, viam-se dois meninos que, com as testas coladas e as pernas afastadas, seguravam-se pelos braços. A brincadeira consistia numa disputa em que o objetivo era tombar o toco localizado no centro do círculo utilizando alguma parte do corpo do adversário. Para isso, não bastava ser forte; era preciso estar atento e ser ágil para conduzir a mão, o pé ou algum outro membro do oponente até o tronco, no intuito de fazê-lo cair.

Além do derruba o toco, outras modalidades tradicionais vêm sendo revitalizadas e transmitidas às crianças: corrida do maracá, arco e fecha, zarabatana e arremesso de lança.

No arremesso de lança, ganha quem for capaz de projetar o objeto mais longe. No arco e fecha, assim como na zarabatana – arma de bambu, pela qual são soprados pequenos dardos –, a finalidade é acertar o alvo. Já a corrida do maracá é uma espécie de corrida de revezamento. O propósito da brincadeira, na qual competem duas filas de 10 pessoas, é que os componentes de cada uma das equipes saiam em disparada, contornem o obstáculo, retornem ao ponto de partida e entreguem o maracá para o participante a seguir. O grupo que cumprir a tarefa em menos tempo é o vencedor.

Para os Pataxó, estas não são apenas recreações, mas uma maneira de fazer aflorar o espírito guerreiro de cada um. Nessas práticas, são conhecidas as habilidades e a atenção sensorial dos participantes, revelando se eles têm condições, ou não, de serem guerreiros tão vigorosos quanto o foram seus antepassados.

Programa de índio

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Com as mãos tapando o rosto, contavam “um, dois, três” e em seguida apontavam uma pilastra. Pela mímica, eu pressupunha que as crianças maxakali queriam brincar de esconde-esconde. Então, com os olhos vendados, contava por alguns instantes à espera de que se dispersassem. Ao abrir os olhos, porém, deparava-me com todos juntos, “escondidos” nos lugares mais óbvios e visíveis.

Queriam ser pegos; às vezes ficavam ao alcance dos braços. Quando isso acontecia, davam gargalhadas e escapavam de novo. Qualquer captura era vã, porque nunca inaugurava um novo pegador. A graça era que estivesse sempre comigo, numa corrida interminável pelos recantos da aldeia.

Como na maioria dos casos, a brincadeira era mero pretexto para que eu simplesmente seguisse seus passos ligeiros. Também as cantigas de roda ou o passa-anel chegavam ao final com este mesmo objetivo. Assimilaram as regras à sua maneira. Apropriam-se dos jogos, da escrita, da instituição escolar, do forró… e os reinventam em seu contexto de vida. Sem deixar para trás os costumes já usuais, enriquecem seu repertório.

Adaptando brincadeiras estrangeiras, revitalizando práticas de antepassados, vivenciando de maneira recreativa seus papéis sociais ou empregando criativamente os recursos que a natureza oferece, as crianças pataxó e maxakali demostram que a vida na aldeia abarca uma gama diversa de atividades lúdicas. Quem disse que programa de índio não é legal?

Realidade indígena

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Realidade indígena 4Infância vulnerável

A pressão exercida pelo agronegócio e as limitações das demarcações de territórios por parte da União têm levado a uma diminuição expressiva da oferta da caça e da pesca, o que conduz a uma dieta alimentar nutricionalmente pobre entre os índios. Divulgado no começo de 2014, um levantamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do governo federal, revelou que, desde 2008, 419 crianças indígenas de até 9 anos haviam morrido no Brasil por desnutrição. O número representa 55% de todas as mortes infantis relativas a essa causa registradas no país durante o período — embora os índios sejam apenas 0,4% da população.

Além da desnutrição, outro problema frequente na saúde infantil indígena é a alta prevalência de doenças infectoparasitárias, como verminoses. Diarreia e vômito, moléstias que matam dezenas de meninos e meninas, poderiam ser prevenidas com melhores condições sanitárias, mas esse setor da população não tem sido visto como prioritário nos investimentos federais. Segundo o Dossiê Saúde Indígena do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), até setembro, dos R$ 48 milhões destinados ao saneamento básico em aldeias, apenas R$ 1,6 milhão havia sido executado. No mesmo período, a Sesai havia executado apenas 7,5% do orçamento previsto para 2014 – R$ 3 milhões dos R$ 40 milhões previstos para a estruturação dos serviços de saúde.

Enquanto o índice nacional de mortalidade infantil foi de 15,02 mortes por mil nascidos vivos em 2013, entre os povos indígenas esse número alcançou 50,1 por mil nascidos, de acordo com dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena.

*Este trabalho foi realizado com o consentimento e a colaboração dos povos indígenas Maxakali e Pataxó.

[Esta reportagem foi publicada na quarta edição de Rolimã (página 56). Acesse a revista na íntegra aqui.]

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