Mãe menina: gravidez na adolescência

14 / julho / 2015 — 5:30 — Rolimã

POR PEDRO ROCHA FRANCO


Mãe menina

O roteiro parece se repetir dia a dia na casa de milhares de meninas pobres. A adolescente engravida do namorado, abandona o colégio prematuramente, o namoro acaba, a jovem fica responsável por cuidar da criança e, com isso, não consegue tempo para estudar e trabalhar. O sonho de um futuro melhor que o dos pais parece fadado a fracassar. Pode parecer simples demais uniformizar a trajetória das mães adolescentes dos mais de 40 mil bebês nascidos em Minas Gerais anualmente, mas basta uma caminhada para conhecer realidades como de Kelly Maria.

Aos 17 anos, Kelly engravidou do namorado. “Sem querer”, conta. Ao saber, logo abandonou os estudos, no oitavo ano do ensino fundamental. Mas faz uma observação: “fui a última das minhas amigas a engravidar” – e lista o nome de quatro outras colegas que antes dela tiveram filhos, enquanto ela amamenta a menina de um ano.

Sem irmãos, ela vive sozinha em Belo Horizonte. O pai da criança, ex-namorado, ajuda somente com fraldas e roupas e, às vezes, visita a filha. “Arrependo muito. Não posso sair, não posso fazer nada. Tenho só que cuidar dela”, diz Kelly Maria, que, em janeiro, pretende procurar um emprego. Atualmente, ela vive com a pensão dos pais, já falecidos. Para conseguir o trabalho, o desafio é conseguir que o bebê fique na creche.

Assim como Kelly Maria, 76% das jovens consideram que uma gravidez não planejada atrapalharia os planos futuros. O número é de uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizada com 2.000 mulheres entre 14 e 30 anos, sob autoria do professor Afonso Nazário. Chefe do departamento de ginecologia da instituição e autor de estudos sobre gravidez e comportamento das jovens, Nazário considera que a gravidez na adolescência é um sério problema de saúde pública, “com impacto econômico, social e emocional muito forte para a mãe”. “Embora a taxa esteja diminuindo nos últimos anos no país, os níveis ainda são altos”, afirma.

Em Minas, no ano de 2003, nasceram 53.388 crianças com mães entre 10 e 19 anos, o que à época correspondia a 18,74% do total de nascimentos. No ano passado, o número caiu para 42.482, ou 16,43% do total. O índice elevado, segundo o especialista, está ligado principalmente a dois fatores: a vergonha dos adolescentes de procurar métodos contraceptivos e a certa dificuldade de eles vislumbrarem os efeitos futuros do problema. Pela pesquisa da Unifesp, 79% das entrevistadas revelam já ter feito sexo sem camisinha.

Em Minas

Afonso Nazário afirma que o poder público tem papel central na facilitação do acesso a meios contraceptivos e na melhor organização da rede médica para conscientização das famílias. Mas isso não exime pais e mães de proporem diálogos sobre sexualidade com seus filhos, nem tampouco a mídia e a escola de participarem ativamente na difusão de informações, com reportagens para discutir o tema e a inclusão do assunto na grade curricular, respectivamente.

Na avaliação do professor, as políticas que tratam da problemática estão muito concentradas nas metrópoles e grandes cidades brasileiras, mas não chegam a municípios de pequeno porte – caso da distribuição de camisinhas na rede pública, por exemplo.

Em algumas escolas brasileiras, uma estratégia que faz refletir sobre a necessidade de prevenção é entregar aos estudantes um pintinho, pelo qual eles ficarão responsáveis por um certo período. O objetivo é apresentar aos adolescentes a dificuldade de se criar  um filho, com responsabilidades permanentes. “Eles sentem o impacto de cuidar de um ser que depende exclusivamente deles”, afirma a enfermeira obstetra e professora da PUC Minas, Miriam de Castro.

A prática é elogiada porque, além de ajudar na prevenção, é destinada tanto a meninas quanto a meninos. A crítica de Miriam e de outros especialistas é que a contracepção se torna uma responsabilidade quase exclusiva das meninas. O correto, segundo ela, seria o diálogo entre os parceiros e a preocupação mútua. “A responsabilidade tem que ser compartilhada com o parceiro. Os meninos precisam fazer parte do processo”, afirma

A gravidez é vista por muitas meninas, segundo Miriam de Castro, como uma oportunidade para o rompimento com conflitos domésticos, uma forma de sair de um ambiente desconfortável. O problema em casa pode ser o uso de álcool e drogas dos pais, a violência entre eles ou mesmo o excesso de responsabilidades sobre a filha. Fato é que a gravidez acaba por se transformar em um problema maior, ou na repetição do problema enfrentado pela mãe anos antes. “A gravidez não é a garantia de um futuro melhor. Isso é pura ilusão”, afirma Miriam.

Vidas hostis

O nível educacional também está diretamente ligado à precocidade da gravidez, segundo o Ministério da Saúde. O primeiro capítulo do estudo Saúde Brasil, de 2013, intitulado Como nascem os brasileiros, mostra que o percentual de grávidas é consideravelmente maior entre as mais jovens quando elas têm menor grau de escolaridade. As estatísticas indicam que somente 15,4% das mães com 12 ou mais anos de estudo (a partir do primeiro ano do Ensino Superior) tiveram filhos até os 24 anos, enquanto esse percentual é quase quatro vezes superior se consideradas as mães que têm apenas de quatro a sete anos de estudo (56,9%). “A persistência desse número de nascimentos [de mães adolescentes] ao longo dos anos evidencia a necessidade do incremento de políticas públicas voltadas para a redução de condições de vulnerabilidade desse grupo populacional”, destaca o estudo sobre a ocorrência da gravidez precoce entre os mais pobres e com baixa escolaridade.

A pouca maturidade das adolescentes grávidas, associada à condição financeira, contribui para a falta de cuidados obstetrícios de rotina. O Ministério da Saúde recomenda que sejam feitos seis exames pré-natal, mas muitas adolescentes não seguem as orientações por vergonha ou falta de informação. “A maioria das intercorrências [termo que define a ocorrência de um evento inesperado em um procedimento médico] é mais comum entre adolescentes”, afirma o professor da Unifesp, Afonso Nazário. Exemplos: pré-eclâmpsia e eclâmpsia (hipertensão arterial), anemia, infecção urinária, entre outros. Segundo ele, o período biológico ideal para a gravidez é após os 25 anos.

A discussão sobre a gravidez na adolescência extrapola os efeitos psicológicos, sociais e econômicos do nascimento de um bebê na vida de uma adolescente. A gestação requer tratamento cuidadoso devido aos fatores de risco associados à idade da mãe. Entre os problemas relacionados à saúde da jovem e do bebê estão o risco de aborto espontâneo, morte fetal, nascimento de bebês prematuros e com baixo peso.

Outro problema relacionado à temática é a quantidade de abortos induzidos. Na América Latina, em 2008, a cada 1.000 adolescentes de 15 a 19 anos grávidas, 25 decidiram interromper o processo antes do nascimento, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), braço da ONU para questões populacionais. Segundo a entidade, as adolescentes são mais propensas a sofrer complicações durante essa prática do que as adultas. Isso porque, entre as primeiras, o procedimento cirúrgico tende a ser feito em fases mais avançadas da gestação e com profissionais e locais inadequados. E, em caso de continuidade da gestação, o risco de morte dos recém-nascidos é 50% maior no comparativo entre mães adolescentes e mães entre 20 e 29 anos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Essa taxa é confirmada por estudo feito pela Universidade Federal de Juiz de Fora que mostra que 51,9 óbitos de fetos e recém-nascidos foram registrados a cada 1.000 nascimentos de mães entre 10 e 14 anos. O número já cai consideravelmente na faixa etária entre 15 e 19 anos, mas ainda é superior se comparado às mães com mais de 20 anos – 23,9 e 20,9 óbitos a cada 1.000 nascimentos, respectivamente.

No Brasil

Fora do Brasil, o exemplo da Jamaica

Na Jamaica, as adolescentes grávidas eram expulsas dos colégios para que o “mau exemplo” não fosse propagado entre as colegas. Um programa criado em 1978 passou a ajudar as jovens mães a retomar os estudos em centros assistenciais depois do nascimento dos bebês. Além de incentivar a educação continuada, as profissionais dos centros aconselham as adolescentes a evitar uma segunda gravidez, oferecem treinamento em habilidades práticas para cuidar dos filhos e o serviço de creche. O atendimento é estendido aos pais adolescentes e aos avós dos bebês.

Coordenado pela fundação Centro de Mulheres da Jamaica, o projeto é classificado como uma “boa prática” pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), braço da ONU para questões populacionais. O exemplo é destacado no documento Maternidade Precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência, publicado pela UNFPA. Chefes de Estado e ministros de dezenas de países já estiveram no país caribenho para conhecer a metodologia. Com a ajuda do programa, a taxa de gravidez na adolescência na Jamaica caiu de 31% em 1978 para 18% em 2008, percentual próximo ao do Brasil.

Em 2013, o Ministério da Educação da Jamaica lançou a Política de Reintegração de Mães Adolescentes ao Sistema de Educação Formal, em parceria com o Centro de Mulheres, melhorando a lógica do atendimento. Diferente de outrora, as escolas agora são obrigadas a aceitar as jovens mães depois do nascimento do filho. “Queremos dar a cada menina uma educação. Queremos reerguê-la, garantir a ela a melhor oportunidade. Nós somos uma nação que dá uma segunda chance”, afirma o ministro da Educação, Ronald Thwaites, no relatório publicado pela UNFPA.

Com o conhecimento e consentimento de seus pais, as jovens mães recebem informações sobre saúde sexual e reprodutiva e é oferecido o método contraceptivo de sua escolha, o que as ajuda a evitar uma segunda gravidez e lhes permite concluir seus estudos. De lá para cá, a fundação conseguiu manter abaixo de 2% a taxa de segunda gravidez entre as adolescentes inscritas no programa.

Outra prática adotada é a distribuição de preservativos masculinos e femininos. De 2008 a 2011, mais de 16 mil camisinhas foram entregues. Soma-se a isso a sensibilização de meninos e meninas para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

[Esta reportagem foi publicada na quinta edição de Rolimã (página 16). Acesse a revista na íntegra aqui.]

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