Quilombolas: resistência renovada

27 / outubro / 2014 — 5:30 — Rolimã

POR BÁRBARA PANSARDI
Fotografias: Bruno Vilela

Folia

“Você é quilombola?”, pergunto a cada um deles, meninos e meninas. Alguns dizem que sim com convicção e outros apenas assentem com o movimento da cabeça, mas todos respondem afirmativamente. Nenhum, porém, sabe falar o que isso significa. O desconhecimento de garotos e garotas moradores do quilombo de Mangueiras deixa claro que a definição da identidade não é fácil, nem mesmo para os próprios quilombolas.

Consultar o dicionário tampouco é de muita ajuda. Os verbetes ainda definem quilombo como “esconderijo no mato onde se refugiavam os escravos”, sem darem conta das mudanças sócio-históricas e dos novos significados do termo. A definição que aprendemos na escola é, segundo o adolescente quilombola Igor Maurício de Oliveira, 17 anos, “ultrapassada”. Nos dias de hoje, o que é um quilombo, então? E como vivem as crianças e os adolescentes que nele habitam?

“Ai, meu nariz tá coçando!”, exclama o pequenino Yuri, de apenas 4 anos. Suas mãos estão ocupadas enrolando a linha com a qual pretende empinar um papagaio que ainda não possui, impossibilitando-o de levar os dedinhos curtos à face. Seu irmão Kaique, de 6, aproxima-se e, com o indicador em riste, põe fim à sensação incômoda. A singela cena de amor fraterno, no quilombo de Mangueiras, é representativa. A vida no quilombo é comunhão – não apenas pelos laços consanguíneos que ligam os moradores ou pela proximidade geográfica que os cerca, mas principalmente pelo afeto que os conecta. São como irmãos que brigam, mas se amam, que ora discutem e ora se reconciliam, que se hostilizam e no minuto seguinte se afagam.

Partilham história, herança, anseios e responsabilidades. Partilham também um território. “Para mim, quilombo é um povo que tem seu próprio lugar, pessoas juntas”, define Mareny Gonçalves Pinto, 15 anos, do quilombo Mato do Tição, em Jaboticatubas, região da Serra do Cipó. “Gente unida”, “vida em sociedade”, “trabalho em conjunto” e “todos lutando pelo mesmo objetivo” são algumas outras definições que apresentam os adolescentes da comunidade.

A palavra “quilombo” e seus derivados são recentes no vocabulário local, bem como a consciência da luta social deste povo. O autorreconhecimento e a afirmação identitária de grande parte das comunidades quilombolas de Minas Gerais datam dos anos 2000. Antes de se saberem quilombolas, muitos desses homens e mulheres eram apenas mais alguns agricultores, prestadores de serviços ou meeiros, como vários outros da região, que ocupavam terras herdadas de seus antepassados. Gente humilde e de pouco poder, viviam numa relação de submissão e dependência para com os fazendeiros de áreas circunvizinhas, e não raro tiveram suas posses tomadas.

Cada vez mais acuados e espremidos, não se sabiam sujeitos de direitos aptos a reivindicar o território, desconhecendo por completo a Constituição de 1988, que reconhece aos remanescentes de quilombos a propriedade definitiva das terras ocupadas (saiba mais abaixo).

Designação antiga, novos sentidos

A crítica ao regime escravista brasileiro e à herança dele decorrente, aliada aos processos de valorização da identidade negra, promoveram um ajuste de sentido ao termo quilombola, distanciando-o de seu significado histórico original de organização autônoma de escravos negros fugidos. Com uma perspectiva mais positiva, atualmente a ativação da identidade quilombola sinaliza o desejo de um determinado grupo de recuperar seu senso comunitário e de preservar sua relação com a terra.

Foi a Constituição Federal de 1988 que abriu a oportunidade de se promover uma política fundiária de inclusão de grupos étnicos que não tinham seus territórios regularizados. Desde então, identificar-se como quilombo se tornou o caminho de acesso a uma política social de reparação histórica, por meio da qual se garante às populações remanescentes o direito à propriedade definitiva das terras tradicionalmente ocupadas.

A palavra quilombola abarca uma gama diversa de modos de vida das populações tradicionais e a autoatribuição desta qualificação raramente vem sem controvérsias dentro de uma comunidade. Cada qual tem suas especificidades culturais segundo a região que habitam, a genealogia e a história local, mas o que todos os quilombos têm em comum são a ancestralidade negra, presumidamente escrava, os laços consanguíneos e a longeva ligação com uma terra de onde é retirada parte da subsistência material e por meio da qual se preservam a coletividade e a memória comunitária.

Menina_1

Adoção e invenção de uma nova identidade

A referência do termo “quilombola” associada aos herdeiros de escravos libertos é algo muito recente e a palavra não foi adotada sem controvérsias, como ilustra Mareny, 15 anos, adolescente do Mato do Tição: “Quando eu era pequena, alguns falavam [que nós éramos quilombolas] e ficavam nos incentivando. Mas tinha gente que ficava falando que não era quilombola, não. Antigamente o povo sabia que morava aqui e tudo, mas não tinha essa noção, esse interesse”.

Atualmente, é a geração de Mareny que ajuda a tecer novos significados para a ideia de quilombo. São esses meninos e meninas que se reapropriam desses sentidos e, nos seus modos de viver, conciliam tradição e contemporaneidade, fazendo do termo quilombola um símbolo renovado de resistência e valorização da cultura negra.

A garota, filha da atual presidente da Associação Quilombola do Mato do Tição, acredita que não se pode deixar para trás os costumes tradicionais e a memória dos antepassados, mas isso não impede o consumo da cultura da moda, por exemplo. “Nós somos adolescentes como outros quaisquer, a mesma coisa, só que nossa cultura é diferente – e interessante também. Nem por isso a gente fica excluído. A gente faz as mesmas coisas: joga bola, brinca, se diverte, tem telefone e esses meios [de comunicação] tipo Facebook. Só que a gente também tem folia, candombe…”, cita Mareny, referindo-se às manifestações típicas do Matição (veja abaixo).

Participante de várias das oficinas de resgate da cultura local que acontecem na comunidade, ela espera um dia, assim como sua mãe, poder contribuir para trazer benefícios à coletividade: “Quero ajudar no que eu puder para que a tradição nunca morra”.

O candombe é uma manifestação afro-brasileira marcada pelo compasso dos tambus — tambores moldados em madeira, de tamanhos e tonalidades sonoras distintas. De nomes “santana”, “requinta” e “chama” (em ordem decrescente de tamanho), os instrumentos se associam à caixa de percussão e às vozes na composição musical. Cânticos e versos improvisados abordam temas variados: amores, ocorrências do dia-a-dia ou louvores religiosos. Nesse ritual de expressão artística espiritual, a religiosidade caminha junto com o ritmo.

Entre a tradição e a contemporaneidade

Nos fundos do terreno que pertence aos avós, Luan, de 13 anos, e Igor, de 14, estão montando uma pequena horta onde vão plantar verduras para o consumo da família. A relação com a terra vem sendo transmitida há gerações por aqueles homens esculpidos em terra, de mãos calejadas e moldadas pelo formato de suas ferramentas de lavrador. Os jovens aprendizes, contudo, têm mais habilidade com a manete do videogame que com o arado. Ainda assim, até o fim das férias de julho queriam terminar de cercar a área da horta com bambu para enfim tratar o solo e começar o plantio. Difícil, porém, é determinar-se a cumprir a tarefa quando a televisão e os jogos virtuais parecem tão chamativos.

Luan é um exemplo que ilustra como a juventude quilombola concilia a conservação das tradições com o avanço tecnológico. Nas férias, o menino intercala o lazer com as pequenas tarefas domésticas para ajudar a família, como acender o fogão a lenha, cuidar das galinhas do tio e colher laranja crema (limão capeta) para o suco do almoço. Ao mesmo tempo, tem o sonho de todo menino brasileiro – ser jogador de futebol – e divide seus dias de férias entre as partidas virtuais, que exigem mais destreza dos polegares manuais que dos pés, e a transmissão dos jogos da Copa do Mundo, que acompanhou assiduamente.

Quando se sente mal, com a saúde física indisposta, Luan procura tia Divina, matriarca do quilombo, que faz a benzeção – era ela quem cuidava de todos nos tempos em que ali “não tinha médico; era Deus e santo”. Como a maioria dos moradores da comunidade, Luan acredita que a fé e o cuidado espiritual são capazes de ajudar nos males do corpo, porém não abre mão da consulta médica para se certificar de seu diagnóstico.

A colega Mareny faz coro a essa opinião: “Eu acredito [na reza e na benzeção] e sempre recorro à vó Divina. Já melhora bastante, ajuda muito. Aí eu vou no médico só pra tomar alguns medicamentos. Mas com a benzeção, a fé, ajuda demais”.

O quilombo do Mato do Tição, localizado a aproximadamente quatro quilômetros da sede de Jaboticatubas, região metropolitana de Belo Horizonte, parece situar-se entre dois mundos, entre o urbano e o rural, a alopatia e a religiosidade, o conhecimento agrícola tradicional e a tecnologia globalizada. Se por um lado se preserva o candombe, cujo ritmo dos tambores já é entoado pelas mãos de garotos e garotas, por outro não se está distante dos hits do funk reproduzidos em smartphones da juventude local. Da mesma forma, a navegação na internet e o acesso às redes sociais figuram entre as atividades de ócio preferidas das crianças e dos adolescentes, juntamente com os passeios a cavalo, mergulhos na cachoeira e os piqueniques nos gramados.

No meio do caminho tinha um quilombo

Pipoca

Antes da especulação imobiliária, eles já estavam lá. Antes mesmo da Linha Verde, obra rodoviária que cruzou seus caminhos, ou da fundação da capital mineira, que se expandiu ao seu encontro, eles também estavam lá. Ali sempre estiveram, até onde a memória da Dona Wanda – matriarca e mais velha do quilombo – consegue alcançar. A cidade chegou até eles, e não o contrário.

O quilombo de Mangueiras fica às margens da rodovia que liga Belo Horizonte a Santa Luzia. Logo na entrada, vêem-se árvores frondosas, muitas das quais se enchem de mangas entre setembro e janeiro, fator que chama a atenção dos vizinhos – seja porque os convida a colher e deliciar-se com os frutos, seja pelo verde que se contrasta com o acinzentado do asfalto e da região circundante já desmatada.

Não se trata de uma paisagem urbana usual. O chão é de terra batida, com topografia bastante irregular; há mulas, cavalos, galinhas, galos e até patos, um pé de chuchu, bananeiras, cebolinha no balde, plantas de uso medicinal e ritual e um jatobá que, segundo se diz, é tão antigo quanto o próprio quilombo. Há ainda uma mina, nascente de água onde as crianças frequentemente se banham e, no interior das casas, o fogão à lenha resiste.

Igor Maurício de Oliveira, 17 anos, caracteriza a comunidade como uma espécie de “refúgio” dentro da capital mineira. “Morar dentro de um quilombo é diferente porque tem mais natureza ao redor, além de ter mais espaço pra poder brincar, jogar bola”, explica o adolescente.

Estrangeira na terra brasilis

“Que língua você fala?” – a pergunta me interpela de súbito e surpreende. “Português, ué!”, afirmo – mas a resposta não satisfaz. “Não é. Você fala diferente da gente. Em que país você mora?”. Penso no abismo (étnico, histórico, social) entre nossos mundos e sei que ele tem razão, mas tento convencê-lo do contrário: “Eu moro no Brasil, assim como você. A gente não está se comunicando?”. “Você fala porrrtuguês”, repete ele, forçando um “r” que não lhe soa natural. Entendo, então, que ele se refere ao meu sotaque e explico que nasci em São Paulo.

Regionalismos e toadas diferentes à parte, acho que ele tem mesmo razão em acreditar que falamos idiomas distintos. Custo a entender o significado de uma das brincadeiras favoritas dos meninos do quilombo: dibrinha. Um pouco perplexo com minha falta de conhecimento, Thiago, 8, esclarece: “Sabe quando um jogador [de futebol] tá com a bola e passa pelo outro? Isso aí é dibrinha”.

E nossas diferenças não param por aí. Quando avistam um papagaio, seus olhos são habilmente capazes de identificar a cor dele. Eu, que não vejo mais que um pontinho sobrevoando o céu, digo estar impressionada com a visão de raio-X que eles têm, e Thiago me responde: “É que a gente é criança e vê mais coisas, enxerga melhor”. A mim, resta apenas lamentar ter deixado de observar o mundo com tamanha clareza. Enxergam, até mesmo, além do que se vê.

Entre eles, por exemplo, a garrafa pet vazia faz as vezes de bola de futebol ou de qualquer coisa que a imaginação infantil seja capaz de fabular. Quando um dos garotos propõe que brinquemos de peteca e eu lhe questiono se ele tem uma em casa, ele prontamente responde: “Não, mas a gente usa a garrafa”.

Montados em seus cavalos de pau fabricados com um pedaço de bambu, também os irmãos Yuri e Kaique demostram aos céticos como a imaginação os resguarda das adversidades da vida. Alguns poderiam enxergar ali dois meninos magrelos sobre varapaus, mas eles vislumbram grandes cavaleiros sobre o lombo gordo de equinos comilões. “O meu é vermelho, porque comeu muita maçã”, explica Kaique. Já Yuri, que aos 4 anos tem a ambição de um gigante, não se contenta com um só tom e elege uma aquarela para o seu. “E o meu é verde e azul e vermelho!”, diz. Uma espécie de cavalo-camaleão.

O pequeno me pede uma carona e emenda o seu bambu no meu, colocando os dois entre as pernas — no seu mundo, é capaz de cavalgar dois cavalos ao mesmo tempo. Quando ameaço passadas mais rápidas, pede-me para não correr. Depois, entediado com o ritmo vagaroso, reconsidera: “Não é melhor eu dirigir?”. Desvencilhado, acelera e emite sons que forjam algumas relinchadas. “Vamos, mulinha, vamos!”, grita, e lança beijinhos para estimular o animal. Embala uma carreira e, ao final, levanta a parte de trás do bambu. “Olha, o meu dá coice!”, exclama, mostrando que seu cavalo é muito mais sagaz que o meu.

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Cabeça nas nuvens

Eles são fascinados por pipas, raias e papagaios, seja qual for o formato do passatempo volante. Basta avistar um no horizonte que todos apontam seus olhos arregalados em direção ao céu, acompanhando o baile do brinquedo ao sabor do vento. Passam horas a fio com o pescoço voltado para cima, os olhos vidrados no firmamento como quem assiste tevê. Contemplam as disputas de pipas torcendo por sua queda nas imediações do quilombo e, quando isso acontece, correm até onde a mata permite adentrar e esticam o máximo que podem seus braços e pernas miúdos, a fim de alcançar o item cobiçado.

Como o quilombo tem muitas árvores, é comum que as rabiolas dos papagaios caídos pela região fiquem presas às copas e fora do alcance da baixa estatura das crianças. Dá dó ver tantos papagaios inacessíveis, objetos altamente desejados. Embora seja barato, o item supérfluo nem sempre cabe no orçamento. Por isso, perseguem-no como um tesouro.

Para concretizar o sonho de ter seu próprio papagaio, confabulam e inventam estratégias diversas. Vale tudo para caçá-lo, desde emendar galhos de bambu e erguê-los até os troncos mais altos até emaranhar-se entre folhas e arbustos, a ponto de sair com o rosto arranhado. O sortudo que consegue concluir a busca e ostentar o prêmio em mãos é invejado pelos colegas.

“É agora, é a hora!”, exclamam Wellington Júnior e Kaique sobre o novo volante que desponta no céu. Seguem cada passo até que o objeto inicie a queda e rapidamente somem, enfiando-se nos rincões. Retornam vitoriosos. “Hoje é um dia de sorte pra gente!”, alegra-se Kaique, ostentando uma modesta pipa de sacola plástica transparente. O sorriso brilha de orelha a orelha.“Falei que uma hora ia cair um papagaio aqui!”, emenda Júnior, que propõe: “Essa noite, ele fica na sua casa, amanhã na minha, tá Kaique?”. O pequeno Yuri arregala os olhos que lhe sobressaem na face, numa mescla de surpresa e admiração, e com empolgação me diz: “Vou até emprestar minha linha pra ele”.

Instaura-se um momento de partilha, que dura até a próxima contenda infantil pela posse do brinquedo. Em pouco tempo, estarão discutindo e disputando pelo prazer de ser o primeiro a “aprumar” o papagaio e lançá-lo ao céu. Compartir não é tarefa fácil.

Como em uma grande família, nem sempre as opiniões são consensuais e o convívio harmonioso. Mas, em alguma medida, eles sabem que podem contar uns com os outros – seja na caça das pipas, na luta pelos seus direitos ou na oferta da mão amiga quando bate aquela coceirinha no nariz. Isso é ser quilombola.

[Esta reportagem foi publicada na terceira edição de Rolimã (página 20). Acesse a revista na íntegra aqui.]

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