Um quadro vazio: déficit de professores no Ensino Médio

23 / julho / 2015 — 5:30 — Rolimã

POR PEDRO ROCHA FRANCO

Apagão professores 6 - Ag Brasil

Salários muito baixos, alta carga horária e a tensão de se educar centenas de crianças e adolescentes. Ser professor dos ensinos Fundamental e Médio no Brasil vale a pena? O somatório de tantos problemas resulta na insuficiência de “mestres” em sala de aula para formar as novas gerações de estudantes. Problema agravado na rede pública de ensino, onde os fatores expostos são potencializados. Com uma carreira pouco atrativa, o país enfrenta grave crise na formação de um dos profissionais vitais para a construção da sociedade, peça chave da formação de crianças e adolescentes.

Diante da problemática, o Tribunal de Contas da União (TCU) fez uma auditoria para mostrar o déficit de professores no país. Resultado: faltam 32,7 mil docentes com formação específica apenas no Ensino Médio (veja mais sobre o cálculo no “Raio X” abaixo). Em Minas Gerais, são 3,9 mil a menos. A situação mais grave no país é entre os professores de Física. São quase 10 mil profissionais a menos que a demanda das escolas. Química e Sociologia completam as três áreas mais críticas, com carência de 4,8 mil e 4,6 mil professores, respectivamente. Juntas, as três disciplinas respondem por 59% do déficit.

Raio X

Para piorar, o número de professores sem formação específica atuando no Ensino Médio supera o próprio déficit no país. Ao todo, 46.678 educadores que hoje trabalham nas escolas brasileiras não concluíram o curso superior da disciplina que lecionam. Muitos deles concluíram tão somente o Ensino Médio.

Apesar de a auditoria do TCU indicar a insuficiência de profissionais para certas disciplinas, especialistas questionam a afirmação. Na pesquisa O que explica a falta de professores nas escolas brasileiras?, publicada na edição de junho de 2014 do Jornal de Políticas Educacionais, o professor do Departamento de Psicologia e Educação da Universidade de São Paulo (USP), José Marcelino de Rezende Pinto, pós-doutor em administração educacional pela Universidade de Stanford, reforça o argumento de que não faltam professores formados, mas sim atratividade para os profissionais. O estudioso cruzou os dados de formandos e da demanda por educadores para mostrar ser suficiente a quantidade de professores no mercado de trabalho. “Tem professor. Se falta em sala de aula, não é por falta de profissional. A questão é atratividade. O cara forma em Física e vai para outra área [que não a escola]”, sintetiza.

O trabalho conclui que a única disciplina onde pode ser insuficiente o número de formandos é a própria Física. Pelo estudo, em dez disciplinas obrigatórias no Ensino Médio e nos últimos anos do Ensino Fundamental, a oferta é superior à demanda. Exemplo: em Biologia o número de concluintes no período de 1990 a 2010 foi 7,8 vezes maior que a demanda (202 mil formados por 25,8 mil vagas). No caso de Ciências e Língua Estrangeira, há insuficiência, mas, se considerados os formandos em Biologia e Letras, respectivamente, a oferta pode ser suprida.

E mais: o estudo projeta um cenário supondo que todas as vagas ofertadas para formação de professores nas faculdades e universidades públicas tivessem resultado em formandos – ou seja, evasão zero. “Haveria um excedente gigantesco de professores”, pontua José Marcelino. O número se multiplicaria caso fossem consideradas as vagas em instituições privadas de ensino.

O argumento salarial novamente é reforçado ao se apresentar o rendimento mensal médio do professor e de outras categorias profissionais. Pelo levantamento, feito em 2014 com valores referentes a 2009, o professor ganhava um salário médio de R$ 1.916, enquanto engenheiros ganhavam mais que duas vezes isso. O salário de um professor é próximo ao do corretor de seguros, R$ 1.997, e dos caixas bancários, R$ 1.709. “O principal é salário. O resto é conversa”, afirma José Marcelino. A pesquisa não indica qual o destino profissional dos professores formados, mas o serviço público é uma das hipóteses. “O aluno faz Pedagogia para ter um diploma e ingressar na carreira pública. Muitos policiais militares fazem Pedagogia, por exemplo”, relata.

Na avaliação do professor da USP, a ilusão de que o déficit está ligado à insuficiência de profissionais acaba por agravar o problema. Isso porque o poder público acaba por incentivar a maior oferta de vagas. “O mais grave é que com a expansão totalmente irresponsável de licenciaturas na modalidade ensino à distância (EAD), cujos alunos são reconhecidamente menos preparados que os alunos dos cursos presenciais, a tendência é achatar ainda mais os salários, dada a grande oferta, afugentando da profissão exatamente os docentes mais bem preparados que o país tanto precisa para melhorar a qualidade de seu ensino. Qualquer política, no momento, de estímulo à expansão de vagas é um grave equívoco, com consequências danosas para a educação brasileira”, entende.

A lei promulgada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2008, definindo o piso salarial nacional para professores da educação básica, é considerada o primeiro passo para aumentar os ganhos da categoria. Seguindo a lei, em 2015, por 40 horas de trabalho semanais em escolas públicas os docentes têm que ganhar pelo menos R$ 1.917,78. O valor corresponde a mais que o dobro do definido para o primeiro ano de validade da legislação. Em 2009, o piso era de R$ 950.

“O piso nacional é o mais significativo avanço de toda a gestão petista para a educação”, afirma a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integrante do grupo de pesquisa sobre condição e formação docente, Inês Assunção. Mas acrescenta: “Ainda é completamente insignificante para mudar o quadro. Não temos uma crise da profissão, mas das condições de salário”.

Em maio deste ano, o governo de Minas reajustou o salário dos professores, que até agosto de 2017 devem receber de acordo com o piso nacional (R$ 1.917,78) para um regime de 24 horas semanais. O reajuste será repassado em três etapas: a partir de junho, o salário básico – que atualmente é de R$ 1.455,30 – terá um acréscimo de R$ 190; em agosto de 2016 serão mais R$ 135 e, no ano seguinte, virá o terceiro adicional, de R$ 137,48.

Apagão professores 4 - Ag Brasil

Evasão na faculdade

Segundo Inês Assunção, a questão salarial contribui para o grande índice de evasão no Ensino Superior. Os estudantes conhecem um pouco mais da carreira e desistem de continuar no meio do curso. “Do ponto de vista do salário, é das categorias mais mal pagas do país. Os jovens se deparam com isso e não querem formar”, afirma. Ela compara a situação com a do professor de Ensino Superior. No levantamento do professor da USP, José Marcelino Pinto, o docente ganha 2,33 vezes mais no Ensino Superior que no Médio.

Inês se recorda de um aluno de Biologia que, depois de formado em licenciatura, em vez de ir para a sala de aula preferiu ser garçom devido ao salário. “Trabalhando três vezes por semana ele ganha mais que um professor”, afirma. Ela relata que nas salas que leciona na UFMG boa parte dos alunos sonha em ser professor universitário, enquanto raros são os desejosos por escolas de Ensino Médio.

Outro fator apontado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) como crítico é a contratação temporária de professores. Em 11 estados, segundo os números da auditoria, o percentual desse tipo de vínculo supera 40% do total, apesar de a Constituição Federal exigir que o ingresso seja feito por concurso. “Evidencia-se, assim, que essa modalidade de contratação, em alguns sistemas estaduais, passou a ser aplicada como verdadeira política de pessoal, embora devesse se prestar apenas a atender necessidade excepcional e transitória”, diz trecho do documento assinado por Valmir Campelo, ministro do Tribunal.

Duke

Valmir acrescenta: “O uso ostensivo, intensivo e, em algumas redes, claramente abusivo do regime de contratação temporária é deletério ao sistema educacional por várias razões. Se de um lado ele frustra a perspectiva de desenvolvimento e amadurecimento profissional onde há a prática de rescisão dos contratos logo após o período letivo, a prorrogação contumaz de contratos em outras redes cria verdadeiras subcategorias de professores, sem a mesma remuneração e sem outros direitos viabilizados por meio de vínculo minimamente estável com os governos estaduais”.

Além da valorização salarial, alguns fatores podem tornar a carreira de professor mais atrativa. A possibilidade de atuar exclusivamente em uma escola é uma alternativa, segundo o professor da USP. A professora da Faculdade de Educação da UFMG acrescenta a necessidade de se ter menos alunos em sala de aula e de ter jornadas menores.

[Esta reportagem foi publicada na quinta edição de Rolimã (página 20). Acesse a revista na íntegra aqui.]

8 comentários. Faça parte da conversa.

  1. Eudazio Soares Responder

    02 / dezembro / 2016 — 22:54

    Pedro, percebo que ha uma forma apequenada de falar sobre o EAD. Eu sou graduando em EAD Geografia e não temo o debate com qualquer professor que tenha obtido graduação presencial.
    Claro, respeito a critica mas não se pode generalizar o ensino a distancia dessa forma. Repito, topo o debate com qualquer formando em Geografia presencial e ate duvida que se tenha uma carga como se tem no EAD.
    porem, respeito as criticas, porem, nao concordo.

    • Jessica Stroebele Responder

      30 / Janeiro / 2017 — 13:00

      Eudazio, queria tirar uma dúvida.

      Quero realizar minha facu EAD, mas tenho medo de ser discriminada no mercado por ser EAD, ainda mais vou fazer Letras/Inglês. Você já presenciou alguma situação em que alguma escola não aceitou ou não aceita professores formados por EAD?

      Aguardo retorno,

      • Nilton Responder

        22 / Fevereiro / 2017 — 11:44

        Olá, fiz Pedagogia em EAD e tanto no histórico como no diploma não existe nenhuma especificação se foi EAD ou Presencial já com o intuito de evitar esse tipo de discriminação.
        Jéssica, o ensino EAD esta crescendo muito, primeiro pelo baixo custo tanto da faculdade como do aluno que não precisa gastar com transporte, xerox, lanche na faculdade e etc, segundo pela praticidade.

        Existem cursos EAD ruins e existem bons, pesquise a grade curricular de cada um , pesquise a faculdade e boa sorte.

        Sobre discriminação creio que o seu conhecimento será levado em conta acima de qualquer coisa, a partir do momento que voce demonstrar dominara o conteúdo do que cursou não existirá distinção se voce fez curso presencial ou EAD.

  2. marcos antonio freitas Responder

    25 / Janeiro / 2017 — 10:01

    siga o exemplo da korea do sul.

  3. Leandro Moreira dá gloria Responder

    02 / Fevereiro / 2017 — 8:46

    Como ainda há preconceito com respeito aos cursos a distância. Querer estudar independe de onde estar,se em sala de aula ou em casa, o importante é ter competência e força de vontade. Não julgue por si mesmo.

  4. Valdemir Responder

    04 / Fevereiro / 2017 — 10:21

    Já vi professores formados em curso presencial que não conseguiram passar em provas para participar de atribuição, ao passo que, na mesma prova, professor formado no sistema EAD, foi aprovado, e aí?

  5. Sidinei Dos Santos Silva Responder

    06 / Fevereiro / 2017 — 11:36

    Olá pessoal, sou formado em geografia, pela Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL. Já ensinei em algumas escolas de ensino fundamental, médio e particular em três cidades do Agreste alagoano, mas atualmente estou parado. Pesquisando sobre a área de trabalho na educação vi que o território brasileiro tem muita carência de professor e gostaria saber mais na área de geografia, como se encontra a área de trabalho, existe muita carência e onde mais existe?, principalmente na rede pública onde gostaria atuar. Dependendo da possibilidade, poderia até ir para outros estados, mesmo distante de Alagoas. Agradeceria se alguém pudesse me passar essas informações ou onde pesquisar melhor. Atenciosamente.

  6. Enéas Regenwald Responder

    11 / Fevereiro / 2017 — 11:42

    Quando o Psicologo da USP fala na entrevista linhas acima”O CARA FORMA…”já desanimou bastante…”CARA”!!!

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